Políticas consensuais entre economistas

Por estes dias em que novas medidas governamentais são anunciadas, seja para controlar as finanças públicas, seja para fomentar o crescimento, é comum dizer-se que sobre essas –  ou quaisquer outras – haverá sempre economistas que as defendem e economistas que as rejeitam – tudo com base na sua minuciosa aplicação da sua ciência económica. Por vezes esta falta de consenso é tão extrema que não é de todo incomum encontrarmos o mesmo economista a defender algo e simultaneamente o seu contrário numa egolatria esquizofrénica. Sobre isto, diz-se ainda que, num dia,  certo presidente americano terá mesmo pedido aconselhamento, convocando um economista que fosse maneta; preveniria assim que este lhe desse uma resposta do tipo – por um lado…mas por outro… (on one hand…on the other hand…).

Mas será mesmo verdade que não existe tema que reuna entendimento entre economistas? Na realidade, não! Claro que para certos assuntos mais complexos  ou relativamente inexplorados será fácil encontrar opiniões difusas entre os seguidores de Adam Smith. Para além do mais, alguma humildade sobre limite da sua ciência, leva mesmo alguns economistas a terem opiniões que podem parecer ambiguas, ponderando cuidadosamente benefícios e custos. Mas tal não significa que não existem consensos na profissão. Na realidade, anos do estudo das relações económicas utilizando uma metodologia científica levam a que os economistas – mesmo quando se de quadrantes políticos opostos – tenham opiniões semelhantes sobre diversos temas. Opiniões que estão muitas vezes em claro contraponto com a da maioria da população e seus representantes políticos.

Este foi um tema explorado há uns meses num programa de rádio norte-americano. Após contactar alguns reputados economistas de diferentes escolas e quadrantes políticos, os locutores do programa recolheram algumas recomendações políticas para o governo dos EUA. Entre as opiniões que reuniram maior consenso encontram-se as seguintes:

  1. Eliminar deduções e benefícios fiscais que os proprietários de habitação própria usufruem quando contraem um empréstimo bancário para a sua aquisição
  2. Terminar completamente com o IRC (imposto sobre os lucros).
  3. Eliminar na medida do possível o IRS (imposto sobre o rendimento individual) e contribuições para a segurança social, compensando a perda de receita com impostos directos (IVA e outros impostos sobre o consumo)
  4. Tributar fortemente a emissão de carbono (impostos sobre os produtos petrolíferos)
  5. Legalizar as drogas leves (marijuana e outras)

E cá está o consenso. Para ser muito sintético, pode-se justificar esta lista com base no princípio de que os mercados não devem ser distorcidos (1), de que a incidencia da tributação deve evitar mercados que reajam muito (2,3), de que a melhor forma do estado moderar certos consumos é através da tributação (4), mercados sobre o qual exista substancial procura não devem ser reprimidos através da sua supressão pois serão apenas desviados para o sector informal do estado (5). Outros estudos mais elaborados chegaram a conclusões semelhantes: na realidade os economistas tendem em concordar em inúmeros aspectos (por ex: evitar proteccionismo ou políticas do tipo ‘compre o que é nacional’, evitar políticas de controlo de arrendamento de habitação, etc.).

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3 respostas a Políticas consensuais entre economistas

  1. Confesso que o 4 surpreende-me que seja tão consensual.

    • Quero dizer, a 3 (substituir o imposto sobre o rendimento por um imposto sobre o consumo) – estava confundido a numeração no post original com a numeração daqui.

  2. Pedro Saavedra diz:

    Este estudo é altamente politizado, não acredito que economistas de renome como o Xor Joao Galamba ou o defunto Sousa Franco concordassem!

    Vêm me lágrimas aos olhos (não sei se de riso ou de tristeza) quando me lembro do SF a classificar o Pacto de Estabilidade e Crescimento: (Citação de memória, nada ipsis verbis mas as analogias sao estas)

    “O PEC é duplamente estúpido pois aquece a economia quando está quente e lança-lhe baldes de água gelada quando está fria! Faz lembrar os pacientes medievais que infligiam sangrias dolorosas ao paciente que em vez de o curar fragilizavam-no por vezes matando-o.”

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