Uma anomalia na história fiscal de Portugal

Ainda na sequência do comentário anterior, deixo aqui algumas figuras com a história recente das finanças públicas portuguesas. A interessante relação que quero mostrar é a associação dos impostos líquidos de transferências com o PIB. Por impostos líquidos estamos a falar de receita total do estado descontado de transferências para as famílias (que implicam apenas redistribuição de rendimentos de umas famílias para outras, por ex., subsídios de desemprego, pensões, outros subsídios), e estas últimas definidas apenas como a despesa pública subtraída do consumo público (este consumo engloba apenas o valor de bens ou serviços consumidos pelo estado, por ex., educação, saúde, serviços administrativos, etc.). Podemos pensar que, se a economia cresce, os impostos líquidos também crescem, e se a economia decresce os impostos líquidos também decrescem. Qualquer desvio desta relação positiva poderá indicar pressão sobre as finanças públicas. Relação identica terá o consumo público com o PIB.

No gráfico abaixo observamos a relação para os impostos líquidos e consumo público (dados da OCDE e todas as variáveis são a preços constantes). Como já estávamos à espera, a relação até é bastante linear e positiva apesar de haver alguns desvios das linhas de tendência. Claro que durante o período traçado, 1999-2011, tivemos dois períodos recessivos o que torna natural que esses desvios emirjam. Mas, analisando os gráficos cuidadosamente, encontramos um erro, do grave tipo Reinhart e Rogoff.

pl1

(constante e inclinação das linhas: -16990.02, .2655004, -15086.32, .2952417, respectivamente da esquerda para a direita)

O problema é que faltam duas observações nos gráficos: os anos de 2009 e 2010, precisamente os tais em que Sócrates decidiu fazer política eleitoralista/económica. Os gráficos correctos encontram-se abaixo. O que salta mais à vista é uma anomalia relativamente à linha de tendência. Ambos os gráficos mostram uma deterioração – e forte – das finanças públicas nesses dois anos. Talvez nenhum dos que hoje aclamam por menos austeridade tenham, na altura, reparado nesta anomalia. A verdade é que o país faliu pelo que alguém deve ter reparado. Uma importante conclusão é que parte importante dos penosos sacrifícios que hoje todos vivemos nada mais é do que a correcção de uma anomalia, um regresso (forçado) à tendência natural, um choque com a realidade.

pl2

(constante e inclinação das linhas: 12710.63, .0715976, -25014.16, .36048, respectivamente da esquerda para a direita)
Anúncios
Esta entrada foi publicada em Economia. ligação permanente.

3 respostas a Uma anomalia na história fiscal de Portugal

  1. Anónimo diz:

    Pois é…mas apesar deste desnorte vivido especialmente em 2009 -2010 e de que o sr. Sócrates é o principal responsável, ele ainda tem o descaramento de ser comentador político/ opinion maker, num canal público, em horário nobre e se calhar a ser aplaudido por alguns portugueses!… É incrível!

  2. Tiago diz:

    Obrigado pela sua contribuição Sr. Anónimo a qual coincide inteiramente com a minha opinião. Mas permita-me que lhe deixe uma nota positiva. Até podemos considerar esta mirífica assomada de Sócrates e sua mesnada como excessiva agra perante uma angústia que nós, portugueses comuns, suportamos sem qualquer culpa. Mas seu legado é apenas uma gota escorrendo da clepsidra do tempo. No futuro, ninguém guardará nem boas nem más memórias desse engenheiro com nome de filósofo; será esquecido. No futuro, as coisas melhorarão – como sempre melhoram – e talvez, um dia, mesmo essas coisas serão recordadas com prazer.

  3. Pedro Saavedra diz:

    É notável a simplicidade da análise que explica o choque brutal sentido em 2011. Bravo!
    Tiago, sugiro-te apenas uns gráficos mais bonitinhos, com a classificação das linhas azul/vermelho etc etc para que qualquer alma penada possa ser confrontada com a realidade mais facilmente.
    Por vezes sofro do mesmo problema, o que me entusiasma são as análises e as conclusões em si, (nunca a apresentação destas), no entanto, uma das coisas que fui aprendendo, é que a apresentação do produto final tem um impacto significativo na percepção do auditório… Um abraço e continuação de bons posts,
    P.Saavedra

Comentar...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s