Incoerência dos cépticos aos estímulos fiscais?

Paul Krugman desafia os críticos aos planos de estímulo fiscais a justificarem a coerência de suas posições:

(…) Which then raises the question: how can you believe that, and not also believe that if the U.S. government were to borrow some of the cash corporations aren’t spending, and spend it on, say, public works, this would also create jobs?….

I have never seen a coherent objection to this line of argument. (…)

Ao que Mankiw responde o seguinte:

“(…) A coherent objection to this line of argument might be the following: If the government borrowed the money to spend, it would need to eventually pay the money back. That means higher future taxes, on top of the future tax increases that President Obama already will need to impose to finance his spending plans. Higher future taxes reduce demand today for at least a couple reasons. First, there are Ricardian effects to the extent that consumers take future taxes into account when calculating their permanent income. Second, those future taxes are not likely to be lump-sum but will be distortionary; it is plausible that at least some of those future tax distortions may adversely affect the incentive to invest today (…)”

E que vai precisamente no sentido do que foi defendido neste blogue à um ano atrás (Efeito crowding out em sentido lato):

“(…) um aumento temporário da despesa pública implica um aumento da dívida pública e como tal um aumento da tributação fiscal no futuro. O problema dessa tributação é que não há muitos impostos lump sum. Ou seja, é provável que o aumento futuro da carga fiscal venha a incidir sobre o rendimento, em particular no rendimento do capital. Mas uma taxa de imposto esperada mais elevada levará a que a taxa de retorno esperada de um investimento corrente passe a ser mais baixa. Ou seja, a procura por investimentos correntes diminui e recuperamos de novo o efeito crowding out (e nem estamos a considerar aqui outros efeitos negativos no consumo relacionados com a equivalência Ricardiana). (…)”

É caso para afirmar que o Prof. Krugman terá de se esforçar um pouco mais para encontrar posições contrárias, mas coerentes, das suas ideias.

Which then raises the question: how can you believe that, and not also believe that if the U.S. government were to borrow some of the cash corporations aren’t spending, and spend it on, say, public works, this would also create jobs?….

I have never seen a coherent objection to this line of argument.

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4 respostas a Incoerência dos cépticos aos estímulos fiscais?

  1. “First, there are Ricardian effects to the extent that consumers take future taxes into account when calculating their permanent income. Second, those future taxes are not likely to be lump-sum but will be distortionary; it is plausible that at least some of those future tax distortions may adversely affect the incentive to invest today (…)”

    Acerca do primeiro argumento, há dias li um post do Krugman (ou seria do DeLong? de qualquer forma, não me apetece ir à procura) que me parecia refutá-lo de forma lógica – imagine-se que o Estado, num ano, tem um deficit de 1 bilião de dólares; mesmo que os contribuintes assumam que esse bilião mais cedo ou mais tarde vai ser transformado em impostos,e que, portanto, o seu rendimento ao longo da vida vai ser reduzido em um bilião, a redução de um bilião no seu consumo vai também ser espalhada ao longo da vida; assim, no tal ano em que o Estado teve 1 bilião de deficit, a redução do consumo privado será muito inferior a 1 bilião,

  2. Uma questão fundamental que se pode colocar é sobre a origem desse bilião de dólares se estivermos numa economia fechada. Como bem referiu, um acréscimo temporário em 1 unidade de consumo público leva a um decréscimo muito inferior que 1 unidade no rendimento permanente dos consumidores. Consequentemente o consumo permanece praticamente inalterado e, como tal, para uma dada taxa de juro, a procura agregada aumenta praticamente numa unidade. Assim, a taxa de juro real terá de subir para equilibrar o mercado do produto. Isto induz a um acréscimo da oferta de trabalho por motivos de substituição intertemporal, induzindo a uma subida do produto. A conclusão resume-se a um baixo efeito multiplicador, embora positivo, da política de estímulo orçamental. E isso deve-se à redução do investimento para que os consumidores mantenham o seu consumo inalterado.

    Seguindo esta mesma lógica podemos concluir que um acréscimo persistente do consumo público terá um efeito multiplicador muito superior ao do caso anterior. Isto acontece devido a uma expropriação da riqueza produzida pelas famílias que funciona como efeito de rendimento negativo sobre o lazer: o trabalho aumenta persistentemente, e o investimento pode até crescer, mesmo que as taxas de juro se mantenham elevadas. Neste último caso o não alisamento do consumo fará com que o impacto da política de despesa seja maior.

    Mas claro que esta análise foi feita num cenário teórico de economia fechada e mercados completos. E não será sobre esta que o Krugman ou o Summers estejam a tecer os seus concelhos. É consensual que num cenário de armadilha de liquidez – taxa de juro colada no limiar nulo – a potência da política de despesa aumenta. Como também aumenta num cenário em que o risco de crédito das dívidas soberanas estejam contidas.

  3. “Consequentemente o consumo permanece praticamente inalterado e, como tal, para uma dada taxa de juro, a procura agregada aumenta praticamente numa unidade. Assim, a taxa de juro real terá de subir para equilibrar o mercado do produto.”

    Penso que estamos muito perto de misturar conclusões e pressupostos – a mim parece-me que a tese de que um aumento da procura agregada induzido pelo deficit não aumentará grandemente a procura agregada total porque, para compensar o aumento inicial da procura os juros têm que subir e reduzir o investimento já me parece ter como pressuposto que a procura agregada não tem espaço para aumentar muito (e, claro um modelo feito no pressuposto que não há espaço para grandes aumentos da procura agregada terá como conclusão que o estimulo fiscal não aumentará muito a procura agregada, mas parece-me um raciocínio um bocado circular); afinal, se assumirmos que há capacidade de produção desocupada suficiente para dar vazão ao aumento da procura criado pelo deficit, então não há nenhuma razão para esse aumento da procura implicar um aumento significativo na taxa de juro para equilibrar o mercado.

    “Assim, a taxa de juro real terá de subir para equilibrar o mercado do produto. Isto induz a um acréscimo da oferta de trabalho por motivos de substituição intertemporal, induzindo a uma subida do produto.”

    Não sei se esse ponto é muito relevante para a discussão (se calhar é o ponto chave do argumento do Tiago e eu não estou a perceber), mas duvido que esse efeito exista na prática (e mesmo na teoria tenho muitas dúvidas) – afinal, em toda a minha vida nunca ouvi ninguém falar em usar a taxa de juro nos critérios para decidir se vai trabalhar muito ou pouco; também em montes de livros (ficção) e filmes feitos em que são abordados temos como o trabalho, o desemprego, etc. acho que nunca apareceu ninguém a decidir trabalhar mais ou menos com base na taxa de juro do momento; também nunca tinha visto tal mecanismo explicado em nenhum dos livros sobre economia que li.

    Pode parecer que estou a usar a falácia do ad populum, mas não – se a quase ninguém ocorreu a ideia que faz sentido trabalhar mais nos momentos em que a taxa de juro é mais elevada, então quer dizer que quase ninguém efectivamente irá fazer isso (e, nomeadamente, pelo mecanismo que o Tiago apresenta)

    Diga-se que já aceitaria mais facilmente se me dissesse que o aumento da taxa de juro levaria ao aumento da oferta de trabalho via efeito rendimento (maiores juros > maiores despesas com pagamentos > necessidade de trabalhar mais): o cenário de alguém arranjar um segundo emprego porque as prestações da casa subiram muito já me parece mais intuitivo.

  4. Expliquei-me mal no ponto anterior – claro que a ideia de trabalhar mais ou menos em função da taxa de juro não é particularmente excêntrica (eu até referi uma possivel situação no último parágrafo); o que me parece uma ideia bastante invulgar é de isso ocorrer por um mecanismo de substituição intertemporal.

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