Islândia e Irlanda no impacto da crise

Como já vem sendo habitual, a amplificação pelo blogue Ladrões de Bicicletas de um artigo de Paul Krugman apresenta uma mera meia-verdade. O autor congratula a eficácia das políticas económicas (identificando-as como desvalorização cambial e controlo de movimento de capitais)  na Islândia para saída da crise em que mergulhou desde 2007. Para corroborar a sua tese, apresenta dois gráficos que aqui replico utilizando o 3º trimestre de 2007 como ano de base – o artigo original utiliza o 4º trimestre.

(fonte: Eurostat, PIB a divisa doméstica constante de 2000)
(fonte: Eurostat)

A comparação intencional com países que encetaram duros pacotes de austeridade económica parece implicar que este tipo de políticas são desadequadas face àquelas mais Keynesianas, de forte incentivo à despesa. Esta é claramente uma implicação que não se pode retirar destes gráficos.

Em primeiro lugar, julgar que a Islândia não implementou medidas de austeridade é um erro. A sua política económica está a ser fortemente deflacionista: o governo não pára de cortar em serviços e gastos públicos para além das reduções salariais dos funcionários públicos. No entanto, esta contracção do país poderia ter sido bastante pior. Lembremo-nos que no início da crise o FMI cedeu mais de $2 biliões para almofadar as necessidades de financiamento do exterior da Islândia e, para além do mais, não exigiu medidas de restrição orçamental permitindo que os estabilizadores automáticos amparassem a economia. Nenhum dos restantes países representados nos gráficos teve ajudas externas em condições tão favoráveis.

Em segundo lugar, antes de se afirmar “antes a Islândia que a Irlanda“, deve-se tentar perceber a fonte dos desequilíbrios da economia e sobre quem recairá o esforço de ajustamento. Na primeira metade da década a Islândia iniciou um claro desvio entre aquilo que consumia e aquilo que produzia – as suas necessidades de financiamento no exterior atingiram quase 25% do PIB em 2006. Para além do mais, a insistência das autoridades na manutenção de uma taxa de cambio fixa em relação ao Euro só veio agravar a situação.

(fonte: Eurostat, saldo da conta corrente e de capital)

Em consequência, o inevitável ajustamento desta economia veio a sentir-se principalmente numa queda abrupta do consumo das famílias via a redução igualmente abrupta das importações.

(fonte: Eurostat, PIB a divisa doméstica constante de 2000)
(fonte: Eurostat, PIB a divisa doméstica constante de 2000)

Deste ponto de vista o desempenho económico islandês já não parece tão superior em relação aos demais. Em última instância, a actividade económica tem como objectivo o consumo das famílias. E esse consumo caiu enormemente na Islândia o que, numa situação em que as poupanças foram dizimadas por quedas de mais de 90% no mercado accionista e de 50% no valor das habitações, penalizou fortemente as famílias. Finalmente convém também perceber que o principal esforço deste ajustamento está a incidir precisamente nos mais pobres e desfavorecidos. Note-se que a Islândia tem de importar uma grande parte dos seus alimentos. Assim foram as famílias mais pobres, onde a alimentação representa a principal fatia do seu orçamento, que sentiram mais penosamente uma duplicação dos preços nos supermercados quando a Krona desvalorizou 50% face ao Euro. Nesta situação não é a distribuição do rendimento que é mais importante, mas antes a distribuição do consumo.

Claro que há sempre países em piores circunstâncias. Mas dificilmente poderemos considerar a Islândia como melhor que a Irlanda ou que o pós-crise está a ser um milagre apenas porque alguns indicadores aparentam bons resultados.

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3 respostas a Islândia e Irlanda no impacto da crise

  1. PR diz:

    É curioso como tanta gente que vergasta o PIB como medida do desenvolvimento não se exime a recorrer a ele quando as conclusões que dessa análise se extraem vão ao encontro das ideias mais acarinhadas. [Já agora, também é curioso que se critique a diminuição de poder de compra que uma redução de salários traria, quando a desvalorização cambial tem o exactamente o mesmo efeito de fazer contrair as possibilidades de consumo das famílias]

  2. “Já agora, também é curioso que se critique a diminuição de poder de compra que uma redução de salários traria, quando a desvalorização cambial tem o exactamente o mesmo efeito de fazer contrair as possibilidades de consumo das famílias”

    Penso que a curto prazo o efeito não é exactamente o mesmo (ainda que numa economia muito aberta possa ser o mesmo) – uma redução de salários no curto prazo transfere rendimento dos assalariados para os empresários; uma desvalorização transfere rendimento dos empresários dos sectores não-transacionáveis e da generalidade dos assalariados para os empresários dos sectores transacionáveis.

  3. Numa desvalorização, julgo que o mais importante será perceber a composição da estrutura de uma economia. Vamos supor que ambos os sectores transaccionáveis e não-transaccionáveis têm uma incorporação importante na sua estrutura de custos de bens importados. Neste caso, e mesmo sendo ambos os sectores afectados negativamente por um aumento dos custos, o sector dos transaccionáveis terá pelo menos um acréscimo de procura do exterior e um desvio do consumo doméstico para bens produzidos internamente, pelo que sairá beneficiado. O mesmo já não aconteceria se a incorporação das importações na produção fosse assimétrica, pendendo para o lado dos transaccionáveis. O que me parece é que essa transferência não tem um sentido tão directo dos trabalhadores para as empresas.

    Já um ponto menos controverso é que o impacto nos consumidores será assimétrico se existir heterogeneidade na riqueza das famílias e se parte do seu consumo for importada. Se o impacto é maior em famílias ricas ou pobres dependerá no tipo de bens de consumo que são importados. No entanto, pelo menos no curto-prazo, todos os consumidores sairão prejudicados com uma desvalorização cambial.

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