Proteccionismo? Não obrigado.

Numa entrevista para o programa Agora a Sério, vejo Rui Tavares a ter um discurso já habitual. O tom pode ser classificado como de manifesto. O objectivo é a transmissão pelo emissor da repugnância causada pelas injustiças sociais que envenenam o mundo, hoje, globalizado. Contudo, descontados os sofismas de tal retórica, e analisadas as implicações sociais do que por vezes é defendido, descobrem-se posições que simplesmente contradizem o propósito do discurso. Isto é, posições que são repugnantes defesas da miséria social.

Numa resposta a uma questão, Rui Tavares insurge-se contra a passividade da União Europeia sobre a admissão da China na Organização Mundial do Comércio. Refere que a abertura dos mercados europeus às exportações chinesas só deveria ter acontecido se o gigante assiático terminasse com o “dumping social”. Ou seja, antes de entrar nos mercados internacionais, governo chinês deveria conceder direitos de “associação sindical”, permitir o direito “à greve”, “subir [administrativamente] salários”, e conceder “leis de protecção do trabalho”. Chega mesmo a utilizar as seguintes palavras – “estamos a competir com a escravatura”. Enfim, Rui Tavares defende que a China deveria manter-se economicamente isolada até que o governo implementasse medidas de valorização dos trabalhadores de acordo com um padrão de exigência europeu.

Posições deste género são apenas autistas. Lembram-me sempre de um célebre artigo de Paul Krugman em que este refere a Montanha Fumegante nas Filipinas. Neste local, milhares de homens, mulheres, e crianças reúnem-se diariamente para vasculhar uma gigantesca lixeira com o objectivo de reunir alguns materiais reutilizáveis que garantam a sua sobrevivência através da sua posterior revenda. Esta degradante imagem da condição humana é usada por Krugman precisamente para por em perspectiva a “escravatura” e o “dumping social” dos trabalhadores em multinacionais localizadas em países subdesenvolvidos.

A questão essencial para essas pessoas é a de alternativa. O trabalho em empresas multinacionais exportadoras de tshirts ou sapatilhas pode parecer mau na perspectiva de um ocidental. No acto de compra de uma tshirt ou sapatilhas, ninguém gosta de ser conivente com situações de produção com baixos salários, longas horas, ou trabalho infantil. Mas a alternativa para essas pessoas é entre deter esse mesmo trabalho que pode parecer mau ou ir vasculhar escória em lixeiras.

Pretender, como pretende Rui Tavares, que se dê acesso aos mercados internacionais apenas a países que obedeçam às leis de protecção do trabalho europeias, é retirar aos países mais pobres a sua única possibilidade de competirem e exportarem. Não nos esqueçamos que os países mais avançados detêm já um conjunto de vantagens históricas: mercados vastos, estabilidade institucional, qualidade de infra-estruturas e recursos humanos. No entanto, um conjunto de avanços tecnológicos (redução de custos de transporte e comunicação) possibilitou que a partir dos anos 70, mesmo com todas as desvantagens inerentes, países subdesenvolvidos pudessem desfrutar dos ganhos da globalização. Ganhos esses que não se esgotam numa melhor afectação dos recursos existentes, derivada dos benefícios mútuos da utilização de vantagens comparativas. Os principais ganhos da globalização para países de baixos salários reside na transferência de capital, tecnologia, e ideias que o comércio internacional com países de elevados salários necessariamente acarreta. É assim desejável que os países se mantenham abertos e que afastem qualquer tipo de ímpeto proteccionista.

O que Rui Tavares se terá esquecido durante a sua intervenção é que, durante o período de 1990 e 2005, a China conseguiu manter uma taxa de crescimento do PIB per capita nuns impressionantes 8.7%. Ao mesmo tempo, a taxa de pobreza diminuiu de 85 para 15% (aproximadamente 600 milhões de pessoas – fonte). Foram estes os benefícios da abertura da China face ao resto do mundo. De facto, os benefícios da abertura dos países ao exterior são realidades bem documentadas e estudadas. Sachs e Warner, dividindo os países do mundo entre abertos e fechados (utilizando critérios convencionais), observam que economias abertas têm, por regra, taxas de crescimento bastante superiores às das economias fechadas (ver gráfico abaixo).

É assim impossível defender posições como as de Rui Tavares na sua entrevista: uma defesa do proteccionismo e da regressão da globalização. No entanto, esses argumentos facilmente criticáveis são  frequentemente utilizados. Acredito que a principal razão para isso seja apenas preguiça intelectual. Ou não estivesse em causa o bem-estar de milhões de pessoas…

lucas2
Fonte: Robert Lucas (2007), 'Trade and Diffusion of the Industrial Revolution'

 https://i1.wp.com/farm4.static.flickr.com/3635/3345904364_a334ec810f.jpg
Smokey Mountain: que bela alternativa à globalização...
Anúncios
Esta entrada foi publicada em Economia com as etiquetas , . ligação permanente.

3 respostas a Proteccionismo? Não obrigado.

  1. PR diz:

    Penso que a crítica do Rui Tavares visava mais a situação do país importador, que teoricamente perde empregos devido ao comércio “desleal” (podemos considerar que esta é uma posição “egoísta”, porque subordina a sobrevivência dos chineses pobres ao emprego dos europeus ricos; mas ela mantém-se mesmo que se demonstre que os chineses beneficiam da globalização).

    Esta ideia, contudo, baseia-se numa falácia: a) a economia é estática, ou seja, não há realocação do factor trabalho; b) o dinheiro ganho pelos exportadores chineses e o dinheiro poupado pelos consumidores europeus “evapora-se”, não sendo canalizado para outras actividades que absorveriam a mão-de-obra entretanto desempregada. No limite, qualquer mecanismo que permita diminuir o preço de um bem (tecnologia, comércio) é nocivo. Não é por acaso que o Luddismo utilizava a mesma argumentação do Rui Tavares.

  2. Pingback: Rui Tavares, o luddita « O Insurgente

  3. Olá PR,

    Em geral tenho exactamente a mesma perspectiva sobre o comércio internacional. Não se trata um jogo de soma nula, mas de um de soma positiva – embora a justificação para isso possa não ser muito simples para que não tem muita prática da metodologia da ciência económica. Penso que seja mesmo por isso que argumentos ludistas ainda se aguentam nos dias de hoje, mesmo após autores do séc. XIX terem destruído, com bastante clarividência, a sustentação lógica de tais posições – recorde-se por exemplo dos textos de Bastiat.

    E também me pareceu que a crítica de Rui Tavares se centrava também no situação do país importador. Mas as palavras que utilizou foram claramente desadequadas. Se este se queria referir à situação do país importador não se deveria ter referido à “escravatura” do país exportador. Daí a minha crítica neste artigo.

Comentar...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s