Caricatura à política keynesiana de obras públicas

Um dos principais objectivos dos pacotes de estímulo orçamental é a mobilização de recursos não utilizados de uma economia e, no caso da deflação ser considerada como um problema, evitar uma queda de preços. Uma questão que pode ser colocada será: – mas haverá espaço nesse plano para obras públicas completamente desnecessárias? Ora vejamos o que o próprio Keynes refere no seu precursor livro de macroeconomia:

“‘To dig holes in the ground’, paid for out of savings, will increase, not only employment, but the real national dividend of useful goods and services.”

Apesar de uma ressalva explicitada por Keynes mais adiante nesse livro, a ideia fundamental é que a produtividade inerente da obra pública não é o importante, mas sim a sua execução. No entanto, perante um risco de queda de preços podemos mesmo ir mais longe: a política de estímulo económico deve ser em obras públicas inúteis – elefantes brancos ou abrir buracos no chão.

A justificação para esta tese caricata é muito simples. O investimento público em projectos produtivos aumenta a oferta agregada de uma economia. Isto impede que políticas com o objectivo de manutenção de preços elevados tenham os resultados previstos. Assim o investimento, por exemplo, num mausoléu terá como benefício o emprego de trabalhadores, dificultando a sua contratação por empresas privadas e, assim, sustentando os salários – e por arrasto o preço de outros bens – num nível mais elevado. Já o investimento em projectos produtivos terá o perverso efeito de reduzir os custos de actividade dos agentes económicos com a subsequente pressão deflacionária no nível geral de preços.

Podemos assim compreender melhor as políticas de obras públicas do actual governo português – hoje adiadas por motivos de força maior:

  • terceira autoestrada paralela Porto-Lisboa
  • autoestrada Beja-Sines
  • TGV do Poceirão a Caia
  • terceira travessia sobre o Tejo (de preferência para um deserto)

E para finalizar deixo aqui outros exemplos – para serem utilizados por um qualquer governo – de bons investimentos públicos compilados por Sala-i-Martin:

(claro que neste artigo estou a tentar ser irónico; para uma discussão mais séria sobre efeitos de política orçamental ver aqui)

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3 respostas a Caricatura à política keynesiana de obras públicas

  1. Poderiamos ir mais longe e concluir que ainda melhor seria uma politica de obras públicas que destruisse infra-estruturas úteis (p.ex., demolições em larga escala) – assim, não só não aumentava a produto potencial como até o diminuia; para os mais entusiastas de politicas coordenadas internacionalmente, uma variante poderia ser cada país fazer essas demolições nos países vizinhos (e vice-versa), de forma a esse aumento da procura agregada+redução da oferta agregada ocorrer de forma global (há quem diga que foi necessário uma politica sincronizada desse tipo para sair da Grande Depressão dos anos 30).

  2. É bem visto esse ponto. Realmente não pensei suficientemente longe para incluir a destruição de infra-estruturas nesta caricatura.

    (bem sei que a relação não é muito directa mas toda esta questão dos preços elevados sempre me fez lembrar os primeiros capítulos do livro ‘Sofismas Económicos’ do Bastiat – certamente que seria um bom blogger se vivesse nos dias de hoje)

  3. Nuno diz:

    Boas
    As imagens estão giras. Ilustram bem a falta de bom senso que reina por esse mundo fora.
    Cumprimentos

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