Moeda, poupança, e confusões económicas – o paradoxo da poupança (II)

Convém referir que aquilo que Keynes baptizou de paradoxo da poupança, resulta da peculiaridade da moeda numa economia de trocas. Este paradoxo deriva da possibilidade da ocorrência de um excesso de procura de liquidez, que pode ser persistente apenas pelo facto da moeda ser um meio utilizado para transacções. Para evidenciar isto, substituamos moeda por outro tipo de ‘poupança’, por exemplo jóias ou casas, e vejamos o que ocorreria numa economia hipotética.

Assim, o que é que eu poderia fazer se a minha posição desejada de jóias aumentasse? Essencialmente, teria uma única solução: comprar mais jóias no mercado. No entanto esta solução pode falhar se eu não encontrar nenhum vendedor disponível no mercado. Neste caso, o meu excesso de procura por jóias dissipa-se e o mercado regressa ao equilíbrio inicial (ou o preço por jóias aumenta equilibrando o mercado num nível de transacções diferente).

Com moeda, temos de considerar a peculiaridade desta ser um meio de troca e desta se encontrar sistematicamente a fluir para dentro e fora dos cofres dos agentes económicos. Se eu desejar aumentar a minha posição em moeda, e se ainda assim, não conseguir comprar moeda no mercado (ou vender quaisquer outras coisas) tenho sempre a opção de vender menos moeda (ou comprar menos de quaisquer outras coisas). Esta última opção depende apenas de mim e não de um parceiro disponível para transaccionar. Como tal, não pode falhar. Pelo menos, se eu agir individualmente. Poderá no entanto falhar se todos agirem da mesma maneira.

Suponhamos então que todos os agentes de uma economia estão com um excesso de procura por moeda. Se estes utilizarem a primeira opção acima descrita vão falhar directamente porque não vão encontrar vendedores disponíveis de moeda. A resolução deste excesso de procura ocorrerá por uma de duas maneiras: ou o preço da moeda sobe (preço de todos os outros bens decai, ie., deflação) ou então os agentes tentarão satisfazer o seu excesso de procura por outra via qualquer. Naturalmente que a segunda opção será tentada – decisão individual de vender menos moeda. No entanto a agregação de todos os agentes implica também que a segunda opção falhará. Isto acontece porque a redução do fluxo de saída de moeda de uma pessoa é a redução do fluxo de entrada de outra. Mas como esta opção resulta de uma escolha unilateral, os agentes continuarão a tentar satisfazer o seu excesso de procura de moeda vendendo menos moeda, ie, comprando menos bens. Esta persistência continuará até que o rendimento nacional decresça o suficiente para satisfazer o balanço de moeda dos agentes.

E esta é a essência do paradoxo da poupança de Keynes. Note-se no entanto na confusão que a palavra ‘poupança’ pode causar. Do ponto de vista da contabilidade nacional, ‘poupança’ refere-se à parte do rendimento em bens produzidos que não é despendida em bens de consumo. No entanto a história contada acima refere que, para haver um paradoxo de poupança, é necessário que essa ‘poupança’ seja afectada para liquidez, isto é, moeda. Por exemplo, a deslocação da procura das famílias de bens de consumo para bens de capital, representa um aumento da poupança desejada mas não causará nenhum paradoxo da poupança. Mas a deslocação da procura de bens de consumo para a detenção de meios de liquidez, representa um aumento da procura de poupança desejada que causará um decréscimo do produto nacional (a não ser que o preço da moeda caia ou que a quantidade de moeda aumente).

Fica assim explicado que a invocação da paradoxo da poupança para demonizar as famílias ou nações mais poupadoras, e angelizar as mais gastadoras é essencialmente um abuso. Esta teoria tem em consideração um período de relativo curto-prazo e especifica um caso particular de procura de poupança – moeda ou liquidez. Na realidade, ao contrário do que defendem certos comentadores, a existência de poupança é mesmo condição necessária para o crescimento económico de uma qualquer nação.

(para facilitar a leitura desta reflexão, este comentário será dividido em 3 partes: I, II, III)

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3 respostas a Moeda, poupança, e confusões económicas – o paradoxo da poupança (II)

  1. Pingback: Moeda, poupança, e confusões económicas (I) « Mercado de Limões

  2. Pingback: A poupança no contexto keynesiano « O Insurgente

  3. Forex Blog diz:

    Thankss for finally writing аbout >Moeda, poupançа,
    е confusões económicas – o paradoxo ԁa poupança (II) | Mercado de Limões <Liked it!

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