Desafios da imprensa generalista

A recente reestruturação do jornal i provocou uma pequena discussão na blogosfera sobre a viabilidade futura da imprensa (ex: aqui, aqui, e aqui). É certo que a circulação generalizada de revistas e jornais é algo desejável, contribuindo para uma opinião pública mais crítica. Contudo, é também de reconhecimento generalizado que esta é uma industria em crise, com sérias dificuldades financeiras. Já sobre os factores que contribuíram para este estado de coisas, e de soluções para este sector, não existe um consenso claro. Em particular, a emergência da popularidade da Internet é normalmente vista como o carrasco final da imprensa. Tal visão é prematura. Convém pois esclarecer algumas das tendências históricas que culminaram no actual panorama.

Um erro comum é afirmar que o aparecimento da Internet veio desviar uma significativa quota do mercado publicitário das revistas e jornais. Esta é apenas uma verdade muito parcial. Utilizando dados relativos ao mercado dos EUA, verifica-se que essa tendência se iniciou muito antes da web se ter tornado popular. Naturalmente, com o desenvolvimento de outros meios de média e publicidade mais direccionados – principalmente televisão por cabo, e correspondência directa -, a imprensa escrita perdeu a importância que outrora teve. A Internet veio apenas acelerar um processo de decadência que já se encontrava em curso desde os anos 70 do século passado.

fonte: diversas, apresentação por H.Varian - Google

A razão desta queda da imprensa nos mercados publicitários é simples: notícias generalistas não vendem publicidade. Mas este é um facto conhecido pelos jornalistas que, já desde há muito tempo, decidiram explorar os interesses especiais dos leitores com secções próprias nos seus jornais de viagens, automóveis,  jardinagem, restauração, etc. No entanto esta tentativa de atrair receitas não foi nem é suficiente. E ainda menos o é à medida que a Internet vem facilitar as necessidades mais especificas de informação dos consumidores.

Mas a emergência da Internet vem também abrir novas potencialidades à imprensa escrita. Os jornais migram parte importante das suas operações para a rede e começam a experimentar a cedência de conteúdos mediante o pagamento pelos utilizadores. Rapidamente se começa a perceber que per se, esta não é uma solução viável. O mundo da Internet é o da competição. Esta será particularmente feroz quando a variável diferenciadora do que se vende é apenas o preço. Entre economistas é comum designar-se este tipo por concorrência à Bertrand: a competição arrasta todos os agentes ao mínimo denominador. Significa isto que, se há pelo menos um fornecedor a garantir notícias e conteúdos de média gratuitamente (preço zero), então todos os outros terão também de a disponibilizar por esse preço se quiserem ter alguma procura. Imaginemos, por exemplo no valor acrescentado para um consumidor da meteorologia num conteúdo pago – zero!

A economia industrial indica que a única solução para esta dinâmica decadente do mundo da competição à Bertrand passa invariavelmente por uma maior especialização e qualidade. Mas mesmo neste campo  é necessário bastante prudência e tentar evitar conteúdos facilmente reproduzíveis. A notícia de resultado de um jogo de futebol infantil local pode ser considerado um conteúdo especializado, mas ao se pensar na quantidade de mães que, quase instantaneamente, emite o resultado do jogo no Twitter através de smartphones, percebe-se que este é um conteúdo facilmente reproduzível e como tal não comercializável. Ao invés os jornalistas devem-se dedicar à análise de temas específicos, pontos de vista, fornecimento de dados de indústrias; isto é, conteúdos dificilmente imitáveis. Ademais, os jornalistas podem utilizar as suas redes de contactos, normalmente extensas, para envolver especialistas e as suas opiniões directamente com o consumidor, utilizando para isso as novas tecnologias existentes.

Um exemplo que eu aprecio em particular é o da revista The Economist. Os seus artigos são altamente especializados e de qualidade irrepreensível, incluído notícias, análises, estatísticas, e artigos de opinião o que desde logo fideliza uma parte importante dos seus leitores. No entanto não ficam apenas pela versão impressa, disponibilizando também conteúdos na rede de forma extensiva e próxima do leitor: toda a revista impressa é disponibilizada na rede, utilização de blogs associados à revista, disponibilização de podcasts de áudio e vídeo (disponibilizados por canais populares como rss e itunes), debates semanais onde economistas conhecidos e público interessado entram em discussão de ideias,  serviço de agregação de estatísticas, etc, etc. Este é um bom exemplo daquilo que pode ser o futuro da imprensa generalista. Pode ser ainda muito mais. Utilizando as palavras que Hal Varian, economista chefe da Google, utilizou numa apresentação para uma conferência sobre imprensa (disponibilizada em baixo):

“As três coisas que os jornais têm a fazer é experimentar, experimentar, experimentar!”

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