Rendimentos decrescentes – uma resposta

Em resposta ao artigo que escrevi anteriormente o Carlos Santos  argumenta o seguinte:

Enquanto a maioria dos economistas continuarem a encarar o mundo desta forma – “a minha teoria está certa, os dados que se ajustem até baterem certo com ela” – estão a trabalhar numa não ciência.

Sem querer elaborar muito sobre o assunto – até porque o Luís Conraria já teve uma interessante troca de argumentos com o Carlos Santos – vou apenas comentar um aspecto desta frase que parece ter passado despercebido. Em economia como em qualquer outra ciência devemos ter bem presente a distinção entre os termos ‘dado’, ‘previsão’, e ‘estimativa’. O primeiro é um acontecimento já ocorrido que pode ser mensurável. Já o termo ‘previsão’ resulta da aplicação de um modelo teórico – conjunto de variáveis que estão relacionadas por uma série de restrições – independentemente desse modelo ser um político, econométrico, ou qualquer outro. Posteriormente os modelos podem ser utilizados para vários propósitos, por exemplo a explicação de desenvolvimentos alternativos da realidade. Temos então uma ‘estimativa’. O relevante aqui é que as estimativas são um resultado que deriva de uma teoria.

Como os €21 biliões são uma ‘estimativa’ e não um ‘dado‘ a preposição do Prof. Carlos entra numa circularidade que pode ser resumida da seguinte maneira: se a minha teoria está certa, então a estimativa (minha teoria) que se ajuste até bater certo com ela. Temos uma clara tautologia. Uma tautologia que obviamente não tem qualquer relação de equivalência lógica com ciência. Já com ‘dados’ não poderíamos dizer o mesmo porque estes não se ajustam. Se não verificarem a teoria, então esta é falsa; mas se verificarem, a teoria pode ou não ser falsa. É por isso mesmo que convém sempre fundamentar bem as teorias subjacentes (ou neste caso, estimativa) quando não existem dados suficientemente adequados para a refutar. E não é isto que é feito no manifesto dos 51 quando descrevem a estimativa dos €21 biliões. Em parte nenhuma do documento conseguimos perceber qualquer justificação teórica àquele número.

Para finalizar voltemos ao tema central que originou a discussão: retornos decrescentes no factor trabalho. Na realidade existem vários estudos sérios a identificar que o factor trabalho apresenta rendimentos decrescentes (ex.: Eisner; Burnside, Eichenbaun, e Rebelo) em economias industrializadas (pelo menos no curto-prazo). Claro que isto não significa que nunca existam situações de retornos crescentes, mesmo no factor trabalho. Os exemplos clássicos incluem efeitos de aglomeração, emparelhamento (matching), propagações tecnológicas (spillovers), conhecimentos complementares. E estes efeitos, também conhecidos como externalidades, existem mesmo e têm implicações muito reais. Basta pensarmos que num mundo em que só existissem rendimentos decrescentes nunca haveria engenheiros indianos interessados em imigrar para os EUA quando o seu trabalho especializado é tão escasso no seu país e tão abundante no destino pretendido. Estes imigram para os EUA porque o seu rendimento aumenta quando trabalham juntos de pessoas com o mesmo nível de competências e beneficiam do conhecimento complementares existentes, por exemplo, em Silicon Valley. No entanto, estes fenómenos não eliminam necessariamente os efeitos tradicionais que referi: mais empregados para um mesmo número de máquinas diminui o produto adicional de cada um deles (devido a congestionamento, distracção, etc.). Isto é como em tudo o resto na economia – existem benefícios e custos; ou, no presente caso, existem efeitos que levam o factor trabalho a ter rendimentos decrescentes e outros que o levam a ter rendimentos crescentes. Agora, a questão fundamental que me levou a escrever o artigo anterior prende-se com o seguinte – será que, quando apresentaram no manifesto que a produtividade média do trabalho aumentaria se o desemprego desaparecesse do dia para a noite, tiveram em consideração tais externalidades positivas? E porque é que esses fenómenos aplicar-se-iam tanta importância numa economia como a portuguesa? A resposta a estas questões eu não encontro no manifesto.

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4 respostas a Rendimentos decrescentes – uma resposta

  1. JG diz:

    Bom dia,
    O “Luís Conraria”, não. O Professor Luís Conraria. Ou Doutor Luís Conraria. Só porque ou ambos são, ou nenhum é.

  2. Bom dia JG,

    Tipicamente não costumo adicionar sistematicamente títulos académicos ou profissionais quando tenho discussões na internet. Só o utilizei neste caso porque conheço pessoalmente o Carlos Santos e este foi meu professor – um dos melhores que já tive diga-se. No entanto reconheço que a forma como me tinha referido o Luís e o Carlos no artigo pode levar a interpretações erradas relativamente a um eventual tratamento diferenciado entre estes dois economistas. Assim, já retirei o título “Prof.” neste artigo.

  3. LA-C diz:

    JG, obrigado pelo cuidado que teve, mas, sinceramente, fora da sala de aula estou-me nas tintas para esses títulos. O meu nome blogosférico é LA-C.

  4. JG diz:

    Olá Tiago,
    Obrigada pela explicação. Não sou fã de títulos e acho que assim ficou bem melhor.
    LA-C, não esperava outra coisa.

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