Sistemas políticos mudam mas os príncipios ficam

Numa discussão que está a ser mantida no blogue ladrão de bicicletas, Jorge Bateira propôs uma alteração ao sistema capitalista actual. Em suma o Jorge Bateira defende uma alteração de instituições que não pusesse em causa a eficiência da economia de mercado na alocação de recursos. Claro que este tema dá uma boa discussão económica pois já aqui defendi que esta ciência encontra-se definida para explicar fenómenos bastante gerais; aplicáveis a diversos sistemas do espectro político. Como a resposta que dei no blogue não foi devidamente revista, transcrevo-a aqui com algumas correcções e ligações:

Um breve comentário sobre esta discussão.

A questão mais importante aqui colocada é como alterar o mecanismo de mercado para implementar os objectivos de esquerda (sem ser por uma via revolucionária).

E a resposta a esta questão não é fácil. O Jorge Bateira reconhece que o capitalismo prevalece sobre o comunismo (ou utilizando uma palavra mais bonita: socialismo real) em eficiência económica. Mas interessa perceber por que é que isto acontece. E a resposta encontra-se centrada nos incentivos. Os incentivos são importantes se pretendermos ter pessoas produtivas que contribuam para a sociedade. Numa economia livre de mercado o mecanismo natural de incentivo é o objectivo do lucro – algo que deverá repugnar muita gente neste espaço. Enquanto, num sistema alternativo comunista, o mecanismo de incentivo é a execrável  Gulag – que nem assim conseguiu alinhar devidamente os incentivos dos trabalhadores.

Claro que o Jorge Bateira reconhece isto mesmo. Assim propõe uma solução com o objectivo de manter todos os direitos que hoje detemos (liberdade, justiça, etc.), mantendo os mecanismos de alocação e de incentivos característicos das economias de mercado. A solução passa pela “progressiva e progressista transformação do capitalismo tendo em vista a subordinação dos mercados ao interesse público democraticamente deliberado”. Claro que podíamos dizer que isto é o que tem vindo a acontecer nas nossas democracias ocidentais. Por exemplo, quando nos anos 80 as populações começaram a considerar ilegítimo taxas de tributação de rendimento de 80 e 90%, trataram de democraticamente eleger políticos que reduziram as taxas para os níveis actuais (30-40%). Também podia falar em como a democracia pode ser um atentado a certos direitos mais fundamentais que se encontram mais protegidos pela instituição  mercado. Por exemplo, no mercado eu posso escolher por uma gravata amarela enquanto o Jorge pode escolher por uma gravata azul, e todos podemos satisfazer as nossas preferências. Numa democracia totalitária isto não é necessariamente assim: se a maioria decidir por uma gravata verde lá teremos todos de a usar. Mas também não vou falar disso. Prefiro manter a discussão no campo puramente económico.

Se destrinçarmos melhor a proposta do Jorge verificamos que aquilo que aquilo que ele efectivamente propõe é a “multiplicação de espaços de democracia participativa, incluindo o interior das empresas”. Ou seja o de obrigar as empresas a terem nos seus concelhos executivos elementos dos trabalhadores – algo que já tinha defendido neste blogue. Esta concepção equivale a considerar a economia de mercado como uma gigantesca árvore de natal em que, mudando umas bolinhas aqui e ali, nada acontecerá às demais – o resultado final será bem mais bonito. Na realidade estes sistemas económicos são bem mais complexos: subtis alterações podem ter impactos abrangentes. E esta proposta do Jorge Bateira é uma delas, porque destrói parte dos incentivos tão importantes para as economias de mercado. Pensem como é que uma empresa se governaria com uma gestão constituída por accionistas, empregados, fornecedores, clientes, ambientalistas, fiscais, etc. Todos estes com objectivos diferentes e mesmo opostos. De facto seria incrivelmente difícil que estes acordassem um mecanismo de incentivo para motivar os trabalhadores a executarem um nível adequado de esforço. Este é um problema conhecido na ciência económica como múltiplos principais e um agente (o Avinash Dixit tem uns modelos interessantes sobre isto). E um exemplo de uma instituição que funciona nestes moldes é a UN onde nunca nada é decidido.

Na realidade a proposta do Jorge Bateira afectaria parte dos incentivos que caracterizam a economia de mercado. O resultado seria um crescimento económico mais lento no futuro. Claro que não tenho nada contra, desde que todos estejamos bem informados desta possibilidade. Mas em parte é por isso que existe ciência económica – para nos esclarecer algumas implicações deste tipo de propostas políticas.

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2 respostas a Sistemas políticos mudam mas os príncipios ficam

  1. tiago diz:

    Responde-me lá oa meu comentário no post que referes no ladroes de bicicletas

  2. Neste momento estou um pouco apertado em relação a uma tarefa que tenho pendente. Mais tarde terei todo o gosto em lhe responder.

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