Telenovela de economistas: Sachs vs. Easterly

É natural que um tema tão importante a pobreza no mundo gere debates intensos e intermináveis. Um exemplo de um desses debates passa-se com os economistas mundialmente reconhecidos Jeffery Sachs e William Easterly. E a luta de argumentos entre estes dois senhores tem sido realmente épica. Recentemente, a publicação de um polémico livro da Sra. Moyo sobre a pobreza em África, veio reactivar aquele antigo debate.

Antes de mais convém referir, muito sucintamente, em que é que estes economistas divergem. Sachs é um economista bastante activo, defende que a geografia é um importante determinante da pobreza no continente africano, que a ajuda humanitária dos países ricos tem sido insuficiente nos últimos anos, e que essa ajuda deve ser coordenada a partir do topo para a base pelos países mais desenvolvidos. Os governos têm um papel fundamental na gestão das ajudas humanitárias. Este economista tem mesmo uma visão, quase utópica, que está nas nossas mãos a erradicação da pobreza em África.

Já Easterly é um economista mais comedido e não tão dado a espectáculos. Este é um céptico que desagrada-se quando olha para os factos estatísticos relativos às ajudas humanitárias. Entre 1950 e 1995 os países ocidentais transferiram mais de usd 1 trilião para países subdesenvolvidos. E os resultados são no mínimo desoladores: por exemplo, o crescimento económico africano encontra-se estagnado, e houve mesmo um aumento de africanos a viver em condições de pobreza extrema nos últimos 40 anos. Esterly defende que a ajuda enviada para os países mais pobres tem sido ineficaz. A razão, argumenta, encontra-se nas políticas governamentais e não na geografia; as ajudas humanitárias devem ter em interesse as populações que lutam diariamente, e logo as acções devem partir da base de uma forma descentralizada de modo que evitemos fugas de recursos para governos corruptos, máquinas burocráticas, ou objectivos que não interessam às populações. Neste sentido Estearly é mais favorável a aplicação de políticas que incentivem as populações a saírem das suas situações de miséria, por exemplo, a utilização de microcréditos.

O facto interessante é que estes economistas atacam-se mutuamente com uma periodicidade bastante marcada. E para todos nós, não especialistas nesta matéria, este debate torna-se uma óptima oportunidade para percebermos mais do assunto. Nesta hiperligação podemos ver a série de artigos trocada entre estes dois economistas que já data de 2005. Por vezes o debate desceu mesmo a um nível pouco comum a tão ilustres economistas. Mas não terá sido por isso que a telenovela encerrou a transmissão. Há pouco mais de 15 dias o debate ressurgiu com mais uma série de artigos e respectivas respostas por parte destes dois intervenientes. E ainda bem.

Porque como diziam uns outros amiguinhos nossos – o debate não pode parar.

(para terminar deixo apenas uma ligação para as únicas entrevistas que conheço destes dois economistas e uma recomendação ao livro do Easterly “The Elusive Quest for Growth”; o correspondente livro do Sachs – que nunca li – é o “The End of Poverty”)

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8 respostas a Telenovela de economistas: Sachs vs. Easterly

  1. PR diz:

    É um debate muito interessante. Mas há outras perspectivas. Gregory Clark, por exemplo, explica a pobreza africana com o argumento demográfico da “armadilha malthusiana” (que tem eco em números que compilei há tempos, embora de forma reconhecidamente especulativa).

  2. O Gregory Clark tem realmente um livro excelente (apesar de que a sua teoria de desenvolvimento, que se baseia na mobilidade social através da demografia, parecer-me excessivamente complexa). E sim, defende que certas partes de África ainda são as únicas onde as populações ainda se encontram a viver sob o modelo de Malthus. Já tinha reparado nos seus gráficos e esses são bem esclarecedores desta situação. Um único comentário é que parte do crescimento populacional do Malawi ou da Etiópia podem derivar de dinâmicas migratórias. Claro que isso não invalida os argumentos de Malthus (apenas levará a uma convergência de rendimentos por pessoa na região).

    Apesar dessa evidência, utilizando argumentos convencionais neoclássicos, torna-se difícil associar linearmente crescimento da população com crescimento da produtividade. Há aspectos que serão negativos e outros que serão positivos; e não parece ser directo que os aspectos negativos sejam mais importantes. De facto estatísticas internacionais não suportam nenhuma relação forte entre variações nas taxas de crescimento do PIB per capita e da população.

    Mas então porque razão têm uns países taxas de crescimento da população extremamente elevadas enquanto outros têm taxas baixas? O Lucas tem umas ideias, na minha opinião, bastante iluminadas sobre este assunto. A sua ideia central prende-se no capital humano, mas a explicação deste assunto seria um pouco morosa neste espaço. Claro que estas ideias mais contemporâneas não passam de outras hipóteses que não descartam automaticamente que determinados países estejam efectivamente a enfrentar uma pressão de recursos à Malthus.

  3. PR diz:

    Não concordo com a suposta complexidade da teoria do Gregory Clark. A teoria é simples: longos períodos de estabilidade criam um panorama fértil para o surgimento de pressões selectivas que privilegiam a capacidade de trabalho, a poupança, o estudo, etc. A longo prazo, isto desagua no desenvolvimento.

    Depois de ter lido o livro, até fiquei com a sensação contrária. A explicação é demasiado simples para dar conta da história económica do mundo. A teoria explica por que é que outras zonas estáveis – como a China ou o Japão – não se desenvolveram; mas não explica como é que zonas que não passaram por um longo período de estabilidade se conseguiram desenvolver de forma tão rápida (e aqui entendo “longo” como um prazo suficientemente alargado para permitir o acumular de pequenas alterações genéticas e/ou culturais).

    Pior, despreza factores políticos e económicos cuja relevância para o crescimento está sobejamente confirmada. O crescimento da China pós-Deng Xiaoping, da Índia a partir de 1991 e dos antigos satélites soviéticos são bons exemplos. Isto mostra que a explicação é, no mínimo, muito incompleta. (Penso que foi o Bryan Caplan que já fez uma crítica neste sentido).

    Penso, ainda assim, que o livro tem dois méritos óbvios. Primeiro, mostra como os condicionalismos malthusianos podem ter tido (têm?) um impacto bem maior do que aquele que tradicionalmente é considerado. Acho que o Eric Jones também defende alguma coisa semelhante, embora o malthusianismo não seja, de longe, o core da sua teoria.

    Segundo, argumenta de forma convincente que a ideia de que o desenvolvimento na Idade Média só não era possível pela arbitrariedade régia pode estar longe de corresponder à realidade. É verdade que a forma como o Clark avalia o medo de expropriação, por exemplo, é bastante indirecta (volatilidade no preço das terras, por exemplo), mas é, julgo eu, o primeiro a tentar estimar a estabilidade política, económica e social em épocas tão recuadas. Se ele estiver certo, a teoria mainstream de que a estabilidade é, por si só, garante de desenvolvimento terá de ser revista.

  4. Pingback: Recomendados #15 | destruição criativa

  5. Caro PR,

    Quando escrevi que achava que a teoria de desenvolvimento do Clark era complexa, não me estava a referir quanto à estruturação lógica do modelo (que realmente é muito simples), mas sim à verosimilhança da sua efectiva aplicação ao mundo real.

    Como bem descreveu no seu comentário, a teoria do Clark para a incipiência da revolução industrial pode-se resumir no seguinte: as pessoas ricas são melhores e afastam as pessoas pobres; ou de outra forma: ricos têm mais filhos vivos -> difusão dos valores de pessoas ricas -> maior paciência, empreendedorismo, preferências de trabalho, etc. -> enriquecimento de todos. Ou seja a teoria do Clark serve principalmente para explicar um parâmetro, normalmente considerado exógeno nos modelos de crescimento neoclássicos (endógenos à Rebelo): o factor de desconto &beta (que pode ser interpretado como o factor de paciência das populações). Devido às dinâmicas darwinistas propostas por Clark (e por outros) este factor aproximou-se suficientemente de 1 (em alguns países), gerando o crescimento espectacular da tecnologia e rendimento per capita que hoje observamos.

    No entanto, na minha opinião, existe uma forma mais simples de explicar como é que essa explosão de tecnologia aconteceu, descrita por Robert Lucas e Gary Becker. Para estes o crescimento deve ser distinguido entre dois tipos: crescimento extensivo onde o aumento da tecnologia permite apenas um aumento da população, mantendo produtividade média constante; e crescimento intensivo onde a produtividade por trabalhador acelera enquanto a taxa de crescimento população se mantém constante. Lucas argumenta que a transposição de uma taxa de crescimento extensiva para uma intensiva deriva de uma alteração da taxa de retorno do conhecimento, ou do capital humano (no sentido lato do termo). Historicamente, a acumulação de tecnologia nas sociedades atingiu um valor crítico que tornou a taxa de retorno do capital humano superior à taxa a que as populações descontam o futuro – &beta . Logo, quando uma sociedade atinge este ponto, faz mais sentido que as famílias invistam mais na qualidade do capital humano dos seus filhos, e.g., com mais educação e menos filhos. E isto deverá gerar o tal crescimento intensivo com um rápido desenvolvimento da tecnologia e um crescimento lento da população. Assim o argumento malthusiano passa para segundo plano, já que a única coisa que interessa são os incentivos necessários para uma transição demográfica.

    Claro que aqui podemos sempre questionar porque é que isto aconteceu primeiro em Inglaterra. Neste ponto julgo que o Clark pode ter uma certa razão naquilo que descreve no seu livro. No entanto, parece-me que este põe demasiadamente em segundo plano o papel das instituições. O facto de Inglaterra ser um país estável e que impedia que os ímpetos rentistas de nações rivais se concretizassem em invasões poderá ter ajudado (como por exemplo não aconteceu no Sul de França no séc. XIII ou na Holanda no séc. XVI). Também o facto de Inglaterra ser uma economia bastante aberta no séc. XVIII deverá ter ajudado ajudado na especialização em actividades de maior retorno de capital humano (manufacturas), com a troca do produto destas por alimentos adquiridos em mercados internacionais.

    Outra questão que se levanta – e regressando ao tema do meu artigo – é porque razão certos países ainda não passaram por essa transição demográfica, por ex. os africanos, se a tecnologia é essencialmente um bem público. E a resposta, na minha opinião, reside principalmente no facto de alguns governos cleptocráticos interferirem com os retornos de capital humano apropriados pelas populações, eliminando os incentivos à sua acumulação.

    Ainda assim, e independentemente da pouca aderência empírica de alguns argumentos feitos por Clark no seu livro, considero que o Farewell to Alms um livro excelente, com imensos factos interessantes e que gerou uma enorme discussão aquando da sua publicação (nunca antes vista em livros de história económica). Mas para mim, a explicação do crescimento/desenvolvimento económico no mundo deverá manter o papel das instituições económicas como um tema central.

  6. PR diz:

    «Mas para mim, a explicação do crescimento/desenvolvimento económico no mundo deverá manter o papel das instituições económicas como um tema central»

    Concordo. Penso que o livro do Gregory Clark está longe de ser uma teoria acabada (embora abra provavelmente uma boa linha de investigação no campo da teoria do crescimento).

    Quanto ao resto, proponho nos tratemos por tu. O “você” aos 23 anos faz-me sentir velhinho. ;)

  7. Este debate entre Sachs e Esterly é muito interessante! Porém, eu possuo uma visão um tanto quanto diferente de ambos.
    Acessem meu site e confiram!

    Obrigado!

  8. Pingback: Moeda, poupança, e confusões económicas – poupança e crescimento (III) « Mercado de Limões

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