Uma década mais que perdida

TVA pib per capita comparativo

Taxa de crescimento do PIB per capita a preços constantes para o Japão (JP), Portugal (PT), Eslovénia (SL), e Estados Unidos (US). As linhas a grosso são séries suavizadas das séries efectivas a fino (através de filtros HP). Fonte: FMI.

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É comum referir a tragédia económica que assolou o Japão nos anos 90 como a década perdida. Muitas foram as razões apontadas para este fenómeno: colapso do mercado accionista, implosão de uma bolha no imobiliário, sistema financeiro moribundo, transição demográfica para uma população envelhecida, desequilíbrio das contas externas, ou alterações das preferências de trabalho/lazer. Mas independentemente das razões que possamos achar mais verossímeis, o facto é que o Japão teve uma década desgraçada. Se considerarmos por exemplo, o crescimento do PIB per capita, verificamos que entre 1991 e 2000 a taxa média se situou em 1%, quando historicamente a taxa de crescimento de um país industrializado anda à volta dos 2%. Portanto, tivemos efectivamente uma década perdida.

Volvido esse período negro no Japão e quase no final de uma nova década, é tempo de anunciar uma repetição histórica: a década mais que perdida em Portugal. Sem querer a avançar com explicações teóricas (que devem ser consideradas noutros debates), passemos directamente aos factos. Entre o ano 2000 e 2008 Portugal teve uma taxa anual média de crescimento do PIB per capita de apenas 0.8%. Sim, 0.8%! Mas para nos situarmos melhor, comparemos estes números com os de outros países:

  • Portugal: 0.8%
  • Japão: 1.4%
  • EUA: 1.4%
  • Eslovénia: 4.1%

O principal facto que aqui vemos é o seguinte: Portugal teve um desempenho produtivo muito inferior ao dos restantes países apresentados. Os EUA e o Japão, países líderes na inovação e que por isso mesmo tendem a ter maiores dificuldades em sustentar elevadas níveis de crescimento, apresentaram taxas de 1.4%. Já a Eslovénia, um país menos desenvolvido mas com a possibilidade de beneficiar da absorção de tecnologias de países mais ricos, cresceu na última década a uma taxa bastante aceitável de 4.1%. Convém relembrar que a Eslovénia tem um PIB per capita muito semelhante ao de Portugal, encontrando-se também na UE a na área Euro. O que não teve foi uma década de potencial humano desperdiçado.

Nesta triste década mais que perdida (2000-2008) conseguimos a proeza de acabar por crescer menos que o próprio Japão na sua década perdida (1991-2000). Este é um facto real que deveria deixar todos os portugueses bastante preocupados. O risco é de continuarmos perdidos na próxima década.

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5 respostas a Uma década mais que perdida

  1. PR diz:

    E se fizer os mesmos cálculos para o Rendimento Nacional per capita chega a números ainda mais assustadores (crescimento real de 0,3% ao ano, ou algo do género).

  2. Pois tem toda a razão caro PR.

    Eu nestas contas nem me preocupei em considerar qual a parte do rendimento que fica no país e qual é a parte do rendimento que sai. E com os agentes portugueses a aumentarem as suas dívidas líquidas em relação ao exterior, que acresce a um agravamento do custo do capital, torna-se natural que os números sejam mais negros do que aqueles que utilizei aqui.

    No entanto a mensagem será a mesma: andámos a marcar passo nestes últimos anos (eu só utilizei o PIB por ser para mim mais conveniente).

  3. PR diz:

    Sim, a mensagem central sai inalterada: andámos a marcar passo. Penso que usar a utilização de valores per capita em vez do crescimento tout court ajuda a dar forma a essa ideia. Mostra como um crescimento médio de 1 ou 1,5% ao longo de uma década pode, no fundo, ocultar uma economia praticamente estagnada.

    Claro que a ideia não é pacífica. Há uns tempos, um professor de economia da UM defendia uma perspectiva contrária no Jornal de Negócios*. Mas os dados que ele apresenta não batem certo com os números que eu conheço (quer do FMI, quer da Comissão Europeia).

    *http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=369052

  4. Não conhecia o artigo que citou do Professor Manuel Cabral.

    Os números apresentados pelo mesmo Professor não me parecem corresponder à realidade (mas não estive a confirmar o RN e as estimativas de 2008 também poderão ser relevantes); alias, a Economist publicou há uns tempos um artigo sobre Portugal com um gráfico muito esclarecedor (ver aqui).

    No entanto tenho a notar o seguinte:

    1. É errado estar a comparar taxas de crescimento do PIB entre países com níveis bastante diferentes. Teoricamente países mais atrasados crescem mais rapidamente que países mais desenvolvidos. E Portugal é o país mais atrasado da UE15 e dos mais atrasados no grupo dos 27. Ou seja, em condições normais deveríamos estar a crescer muito mais que a França, Alemanha, Itália, ou qualquer outro;

    2. Apesar de termos tido choques externos (e nisto concordo com o Professor) que contribuíram negativamente para o nosso crescimento, não devemos colocar todas as culpas no exterior para responsabilidades que a nós nos dizem respeito. Outros países, outrora comparáveis ao nosso, como a Irlanda, a Espanha, a Grécia, também estiveram sujeitos aos mesmos choques, e não foi por isso não cresceram mais do que nós. A real questão é de política interna.

    3. E nas políticas o cenário não me parece risonho. O consumo público em Portugal não para de aumentar (21% 2008); a despesa pública mantém-se alta (46% 2008); e a nossa educação mantém-se lamentavelmente miserável (a avaliar pelos relatórios do PISA – que são os únicos que eu considero – estamos miseráveis em nível e em progressão).

    Portanto terei mais uma vez de concordar consigo: a nossa economia está estagnada (e parece-me que vamos continuar estagnados ad eternum). Sinceramente deveria ser um assunto bastante pacífico para começarmos a pensar em alternativas de desenvolvimento. Mas aparentemente não o é.

  5. dentro de alguns dias este artigo faz 3 anos….

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