Debates Macroeconómicos: subir ou descer salários

É natural que as pessoas tenham ideias distintas. São estas diferenças de opinião que geram discussões, muitas vezes acaloradas e onde ninguém consegue exprimir-se com a devida clareza. Os economistas não fogem deste padrão de comportamento. Felizmente, em economia existe uma linguagem comum que torna estas discussões mais transparentes. Assim à luz da linguagem económica podemos ficar a perceber mais facilmente as ideias que suportam diferentes posições de diferentes economistas.

Um debate deste género que dividiu alguns economistas em Portugal foi o da tendência salarial em tempo de crise. Devem os salários auferidos pelas famílias portuguesas subir, descer, ficar na mesma. Vítor Bento e Silva Lopes, dois proeminentes economistas portugueses, vieram à praça pública defender que os salários devem descer como medida para sairmos desta terrível crise. Mas pouco tempo depois, Vítor Constâncio, outro proeminente, veio defender exactamente o contrário: a descida de salários agravaria a crise económica em que vivemos. Mas então o que é isto? Não estão estes senhores em clara contradição? A resposta simples é: sim estão, mas isto só acontece porque acreditam que a economia portuguesa encontra-se em estados  diferente. Para percebermos isto vamos sujeitar cada ideia a um modelo macroeconómico padrão: procura e oferta agregada utilizando um IS-LM (este modelo pode parecer arcaico mas os passos para torná-lo num modelo de equilíbrio intertemporal e micro-fundamentado não são assim tão complexos).

A economia de base que será utilizada no modelo é fechada (sem transacções internacionais) e com papel-moeda fiduciário.

Ora comecemos pela tese de que os salários não devem descer e vamos imaginar uma situação económica em que esta seria a prescrição adequada. No nosso modelo, as taxas de juro são determinas pela interacção da procura e da oferta de moeda. Aqui estamos a considerar que a procura de saldos reais está negativamente relacionada com a taxa de juro (devido ao custo de oportunidade em juros perdidos pela detenção de moeda). Já a oferta monetária é determinada (quase – irei explicar este quase dentro de momentos) exogenamente pelo Banco Central. Se considerarmos que na actual crise financeira nos encontramos numa armadilha de liquidez, i.e., numa situação em que a procura de moeda é infinitamente elástica, então a taxa de juro econtrar-se-á determinada em 0%, independentemente da oferta monetária real – e lembremo-nos que a oferta de saldos reais é determinada pela quantidade nominal de moeda sobre o nível de preços. Se os preços estiverem directamente relacionados com os salários, uma diminuição de salários implica uma queda de preços, e portanto um aumento da oferta de saldos reais (com a mesma quantidade de moeda consigo comprar mais bens). No entanto, devido à elasticidade da procura de moeda a taxa de juro não sofrerá alterações. Como a taxa de juro é o único canal de transmissão da política económica para a procura de bens e serviços (vamos considerar a política fiscal como inválida), isto significa que a procura agregada (AD) da economia é vertical: alterações de preços não têm quaisquer implicações para a quantidade de bens procurados na economia, logo o PIB é somente determinado pelas características determinantes da procura. Uma queda de salários levaria a uma expansão da oferta agregada (AS), mas como a procura não aumentaria face a este aumento da capacidade produtiva, a solução dos produtores nacionais seria baixar os preços e manter a produção constante. Dito desta maneira até parece que o Dr. Constâncio não tem razão. Afinal a queda dos salários nem tem implicações de primeira ordem, positivas ou negativas, no PIB. Não será bem assim. A questão levantada pelo Dr. Constâncio prende-se essencialmente nas implicações de 2ª ordem de uma queda dos salários e do nível geral dos preços na economia. Como já havia referido aqui, uma queda geral de preços pode levar a um pronunciamento de expectativas de deflação com um impacto negativo na AD e consequentemente também no PIB.

Então e como defender a tese do Silva Lopes? A resposta a esta questão torna-se muito simples se utilizarmos o mesmo modelo com diferentes parâmetros. Vamos supor agora que a política monetária ainda tem espaço de manobra. Isto é, a procura de moeda não é infinitamente elástica. Ademais, a política do Banco Central é a da manutenção do nível geral de preços (para simplificar vamos considerar que a inflação de 2% equivale a uma política de preços constantes). Então, uma redução administrativa do nível de salários teria como primeiro impacto uma diminuição de preços, logo um aumento da oferta monetária, e logo uma diminuição da taxa de juro. Mas devido ao objectivo político na manutenção de preços, o BC teria de expandir ainda mais a oferta (nominal) de moeda para manter os preços alinhados no seu alvo: a taxa de juro cairia ainda mais. No final destas iterações a AD sofreria uma expansão (via taxas de juro) mas a AS não registaria nenhuma alteração (já que no final os preços se mantêm constantes). A existir algum excesso de capacidade produtiva nos produtores nacionais, a redução de salários nas empresas causaria uma expansão do PIB e é daqui que resultam os argumentos do Dr. Silva Lopes ou do Dr. Vítor Bento.

É claro que o modelo que descrevi é uma simplificação abrupta da realidade. Um modelo mais completo deveria ter em consideração que Portugal é uma pequena economia aberta, com taxas de juro determinadas internacionalmente, e com uma política de câmbios fixos – por exemplo o modelo de Mundell-Fleming (neste modelo os apologistas da queda de salários defenderiam que a taxa de cambio real cairia o que beneficiaria as exportações líquidas do país e os apologistas do não manteriam as mesmas razões de 2ª ordem que se prendem com os riscos de deflação). De facto, deste modelo mais complexo resultariam efeitos económicos bastante diferentes dos descritos anteriormente. Mas a questão que me levou a descrever o modelo acima foi apenas a de demonstrar como a ciência económica pode levar a um esclarecimento dos vários argumentos expostos em discussões públicas e de que como seria bom que nestes debates houvesse uma exposição clara dos modelos económicos subjacentes.

Adenda

O laureado Paul Krugman anda a construir umas notas de leitura onde aplica o mesmo tipo de modelo que descrevi neste artigo (parâmetros consistentes com a não queda de salários). Para além dos diagramas AS-AD, podem-se encontrar muitas estatísticas que suportam a sua visão nesses diapositivos.

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