Preocupação de Deflação

A crise financeira e económica é motivo de múltiplas preocupações. Os bancos cortam no crédito concedido, as empresas avançam com cortes de produção e de investimentos, o desemprego aumenta, as famílias reduzem o consumo, e o nível de comércio internacional contrai. Mas em cima de todas estas preocupações surge ainda uma outra: uma deflação eminente. Esta é uma preocupação real. Neste momento o índice de preços no consumidor nos EUA encontra-se em queda livre e a inflação começa a entrar em terreno negativo numa base homóloga (ver fig. seguinte).

infl_core

(fonte: BLS)

Tipicamente os economistas tendem a ver a deflação como tendo benefícios e custos (como alias vêem em tudo o resto). Seguramente que uma queda de preços tem algum aspecto positivo. Afinal todos nós gostamos de comprar barato; sentimos que estamos mais ricos e o dinheiro pode adquirir mais bens. Este é o mesmo tipo de efeito que as famílias sentem numa situação de deflação. Como os preços encontram-se em queda a riqueza aumenta. E com famílias mais ricas o consumo também aumenta. Este é um efeito estabilizador da deflação numa economia. No entanto existem também consequências destabilizadoras.

Em primeiro lugar, uma deflação gera uma transferência de riqueza dos devedores para credores. Isto acontece já que os montantes de dívida pagos pelos devedores permitem um maior poder de compra aos credores, que beneficiam de preços mais baixos. Não haveria mal nenhum nesta situação, não fosse o caso da elevada propensão para poupar dos agentes beneficiados. O consumo fica mais deprimido, arrastando consigo os restantes agregados económicos. Por outro lado as próprias empresas, ao esperarem vender os seus produtos no futuro a preços mais baixos, tenderão a cortar nos seus investimentos. Este é um comportamento adequado se esses investimentos forem financiados por capitais alheios que deverão ser pagos no futuro com receitas necessariamente baixas devido à queda de preços esperada. A deflação assume assim um impacto marcadamente destabilizador numa economia.

Obviamente que os efeitos destabilizadores da deflação suplantarão os efeitos estabilizadores quando uma economia se encontra fortemente dependente do crédito para funcionar. Esta é a situação em que os EUA se encontram actualmente, tal  como se encontravam na década de 20, com níveis de crédito pelo menos 2 vezes ao produto interno. Durante a Grande Depressão os preços caíram mais de 25% entre 1929 e 1931, o que certamente contribuiu para as proporções lendárias dessa crise (queda de 40% de produção industrial, desemprego perto de 30%, etc.). É urgente tomar medidas para que as economias não entrem novamente numa espiral deflacionista. Uma solução pode passar por uma definição de política monetária que se comprometa com um alvo de preços bastante superior àquele existe actualmente. Para se atingir esse alvo poderá ser necessário gerar alguma, ou mesmo bastante, inflação. Contudo, a vantagem de apontar para um nível de preços é que chegado ao nível pretendido (e, supostamente, afastado o risco de deflação) poder-se-ia voltar a uma política de baixa inflação.

Claro que esta crise veio tornar ineficaz alguns instrumentos de política monetária tradicionalmente utilizados para fazer esse controlo do crescimento dos preços. Há que ser então criativo e passar a utilizar políticas não convencionais. Neste campo a Reserva Federal parece estar a liderar, com a introdução de uma política de facilitação creditícia: basicamente são aquisições de um leque bastante diversificado de dívida privada (papel comercial, títulos colateralizados por activos, títulos de dívida das agências hipotecárias, etc.). Para já parece que os resultados estão a ser positivos. Os diferenciais de taxas de juro diminuíram fortemente nestes últimos 2 meses e parece que as expectativas de médio prazo de inflação passaram para valores superiores a zero (uma aproximação destas expectativas é a diferença de retornos entre as tbills e tips 5 anos – gráfico abaixo). Esperemos no entanto que exista uma estratégia de fuga desta política bem definida. O pior que poderia acontecer aos EUA era sair duma espiral deflacionista para entrar numa inflacionista.

expect

(Diferença entre T-Bills e TIPS de 5 anos; Fonte- Fred)
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9 respostas a Preocupação de Deflação

  1. Tarzan diz:

    «elevada propensão para poupar dos agentes beneficiados»

    Mas a maior propensão para poupar não afecta a todos os agentes “por igual” sejam eles credores ou devedores? Aliás, não afectará inclusivamente mais os devedores que sentem urgência em se livrarem das dívidas?

  2. Tarzan diz:

    «as próprias empresas, ao esperarem vender os seus produtos no futuro a preços mais baixos, tenderão a cortar nos seus investimentos.»

    Acho que a questão não está tanto nos preços mas na contracção da procura. A descida dos preços não é mais do que um mecanismo de (re)equilíbrio que “visa” expandir a procura, incentivá-la. É que a deflação, à partida é neutra- as empresas vendem mais barato mas também compram mais barato.

    O grande sarilho da deflação (e da inflação) é a incerteza gerada. Deflações em tempos de crise são um sinal de que a crise é grave. São um sintoma e não uma doença. A raridade do fenómeno da deflação e o facto de estar sempre mais aliada a recessões graves é que criaram a ideia de que a deflação é um (grande) problema em si. Talvez maior do que na realidade o é.

  3. Caro Tarzan,

    Concordo consigo em relação aos seus dois comentários bastante pertinentes. Acrescentaria apenas alguns esclarecimentos sobre as questões que levantou.

    Em relação ao primeiro ponto concordo que numa recessão económica as propensões para poupar aumentem para todos os agentes como reacção a uma situação adversa. O que eu tentei introduzir foi alguma heterogeneidade nos agentes. Assim se existirem agentes com uma elevada propensão a consumir e outros com elevada propensão a poupar, se ocorrer uma transferência de rendimento dos primeiros para os últimos, teríamos necessariamente uma redução do consumo global, mesmo que essas propensões se mantivessem constantes ao longo do ciclo. Podemos imediatamente imaginar uma história em que os credores tenham uma baixa propensão a consumir (talvez tenha sido por isso que estes se tornaram aforradores num primeiro momento), e os devedores elevadas propensões. Neste cenário, se houverem transferências de rendimento decorrentes da existência de deflação, então teremos uma redução no consumo que agravará o problema que descreveu.

    Continuo a concordar em relação ao segundo ponto que descreveu. A principal razão pela qual as empresas reduzem os seus investimentos em recessões estará relacionada com a quebra de procura. No entanto se tentarmos isolar o impacto da deflação nas empresas, especialmente naquelas que se financiam através do crédito, conseguimos também prever consequências destabilizadoras da queda dos preços. A razão é que nesses casos, o serviço de dívida, a uma determinada taxa de juro nominal (que não pode ser inferior a 0), terá de ser financiado pelas empresas com as receitas das suas vendas. Mas se os preços estão a cair, então o custo real desse serviço será maior por comparação com uma situação de estabilidade de preços. É o equivalente a uma subida das taxas de juro reais para as empresas. Este tipo de dinâmicas, tudo o resto constante, provocará uma redução do investimento empresarial.

    Em cima destes fenómenos destabilizadores há ainda todos os outros convencionais: distorção de preços, incerteza, perda de controle da política monetária, etc..

    Mas claro a deflação não tem só custos. O mecanismo de ajustamento que referiu é precisamente o efeito de riqueza que também mencionei no meu texto original. O que me parece é que os efeitos negativos da deflação serão particularmente perigosos numa economia demasiado dependente do crédito. Para além de sintoma será também parte da doença.

  4. MC diz:

    Continuo a achar que o grande risco que corremos, no longo prazo, não é a deflação mas uma hiper-inflação, derivada percisamente pelas medidas desesperadas de combate à aparente deflação.

    Economicamente (não sei mesmo) pode-se considerar uma correcção de preços como uma deflação?

  5. JP Santos diz:

    Como alguém disse: No longo prazo estamos todos mortos. Pessoalmente, acho que se continua a subestimar a enorme “destruição” de riqueza que ocorreu e as dificuldades de recomposição dos balanços de famílias e empresas que tornam mais provável um cenário de japonização da economia mundial com taxas de crescimento muito baixas durante um período longo.

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