Crise Financeira: Risco de Regulação e Risco Endógeno

Para comemorar a passagem do último milénio, os orgulhosos ingleses de Londres decidem construir uma ponte pedonal. Esta seria uma obra de engenho e arte que representaria a acumulação de todos os milénios que testemunharam o desenvolvimento da civilização. Adequadamente designaram o feito por Millennium Bridge. O sistema inovador de suspensão da ponte, onde os cabos se situavam na base do tabuleiro, permitia uma construção minimalista e esteticamente evoluída. Ao mesmo tempo, a segurança não era descurada. Os efeitos de ressonância foram calculados, revelando-se praticamente inexistentes. Como a circulação pedonal é não coordenada, o efeito oscilatório da passada de um indivíduo é atenuado pela passada de outro (marchas militares são proibidas). Como cada indivíduo é independente e idêntico em relação a outros, por aplicação de leis de grandes números, a probabilidade da estrutura entrar em ressonância era objectivamente não diferente de zero. Mas eis que chega o dia da inauguração – a ponte entrou em forte ressonância (como vídeos sugestivos evidenciam) e teve de ser encerrada para reparações. Onde é que a análise dos engenheiros falhou? Afinal, foram realizadas extensas análises de risco. O acontecimento testemunhado parecia não fazer sentido.

O problema desta obra resultou de medidas providenciais que não tinham em consideração que o risco pode ser endógeno. Isto é, a actividade de um indivíduo tem repercussões na actividade de outro indivíduo que por sua vez afecta a actividade do primeiro e ad eternum. O que aconteceu no fiasco da Millennium Bridge foi que uma rajada de vento um pouco mais intensa desequilibrou no mesmo sentido um número crítico de pessoas. Para se reequilibrarem estas penderam simultaneamente o seu peso no sentido contrário que mais que contrabalançou a ponte e, em ciclos de retroacção positiva, geraram a ressonância verificada na inauguração. A excessiva obsessão pelo risco individual deturpou o vislumbramento do risco global. Não era necessária um tempestade perfeita para gerar problemas, pois o acontecimento impossível era na realidade um acontecimento certo.

Entretanto, enquanto os engenheiros ingleses se questionavam sobre os seus erros evidentes, outros engenheiros criavam outras “millennium bridges”. Aquilo que normalmente é designado de desregulamentação do sistema financeiro não passa de uma pura ficção. Milhares e milhares de páginas de regulamentos bancários foram desenhadas nos últimos 20 anos, formando um emaranhado de  compreensão impossível – o acordo de Basileia II é o exemplo paradigmático. O pior é que no meio de tantos cortes e colagens, discussões entre governos e indústria (para beneficiar o consumidor claro),  negociações e cedências de posições, emergiu um sistema regulatório financeiro que foca-se cegamente na prudência individual. Cada  banco é obrigado a assegurar que os seus activos tenham um nível adequado de risco em relação aos seus níveis de capital.  Mas, tal como no paradoxo da poupança de Keynes, a prossecução de objectivos individuais pode gerar implicações perversas no sistema global. Por exemplo: quando uma instituição financeira fica em dificuldades a sua dívida é considerada como mais arriscada. Mas por motivos prudenciais os bancos detentores dessa dívida terão de reafectar o seu balanço ao novo nível de risco, cedendo menos empréstimos ao mercado, o que terá também terá implicações negativas no banco inicialmente em dificuldades (ciclo de retroacção). Tal como na Millennium Bridge, o risco endógeno parece ter sido completamente desconsiderado.

Quando vários bancos entram em dificuldades por um qualquer choque exterior (ex. incumprimento no mercado subprime), a própria estruturação do sistema se encarregará de agravar o problema. É por isso que a desalavancagem simultânea dos bancos prosseguirá por mais algum tempo.  É por isso que esta crise financeira não se verifica apenas nos países ditos “financeiramente desregulados” como EUA e UK, mas também em todos os restantes. É por isso que a regulação actual, em particular a referente à Basileia II, é má e, ao invés de solucionar, cria problemas.

Claro que a regulação dos bancos deverá mudar. Mas o ruído em torno desta matéria continua excessivo. Ideologias, demagogias, ou políticas interpõem-se frequentemente  às prescrições dos economistas. Um excelente exemplo disto mesmo encontra-se numa publicação enviada ao BIS em 2001 por Jon Danielsson, Charles Goodhart, e Hyun Shin:

“The proposed regulations fail to consider the fact that risk is endogenous. Value-at-Risk can destabilise and induce crashes when they would not otherwise occur.

Heavy reliance on credit rating agencies for the standard approach to credit risk is misguided as they have been shown to provide conflicting and inconsistent forecasts of individual clients’ creditworthiness. They are unregulated and the quality of their risk estimates is largely unobservable.

Financial regulation is inherent procyclical. Our view is that this set of proposals will, overall, exacerbate this tendency significantly. In so far as the purpose of financial regulation is to reduce the likelihood of systemic crisis, these proposals will actually tend to negate, not promote this useful purpose.” (Danielsson et al. 2001) [via voxeu]

Será que é desta que alguém vai aprender a ouvir economistas? Esperemos que sim.

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