A Disjunção do Homo Economicus da Ciência Económica

Parece que a discussão do papel da ciência económica nos currículos académicos ganhou um novo folgo. Em resposta a uma questão lançada por Medeiros Ferreira, Aguiar Conraria responde com um convincente texto que, entre outras coisas, defende que a economia deve continuar a ser estudada enquanto ciência. Ou seja, que os programas de licenciatura, mestrado, e doutoramento em economia não devem ser contaminados por visões ideológicas.

Puxado” pela pergunta inicial e pelas respostas recebidas do Destreza de Dúvidas e Ladrões de Bicicletas, Pedro Lains lança uma outra questão, igualmente interessante e, como o próprio referiu, algo provocadora (diria mesmo irónica):

Devem as universidades e o debate académico servir a luta partidária e pelo poder?

Na forma como eu interpreto esta pergunta, Pedro Lains questiona se um certo tipo de discussão reduz, ou mesmo elimina, o carácter cientifico da economia. Uma resposta completa deverá antes de mais, compreender qual o significado da ciência económica e qual o seu objecto de estudo. Sobre a significância da ciência económica, julgo que ninguém será mais persuasivo do que o brilhante Lionel Robbins. A sua definição lendária define economia da seguinte maneira:

Economics is the science which studies human behaviour as a relationship between ends and scarce means which have alternative uses.

Ou seja, o conceito fundamental da economia encontra-se na escassez de “meios” para atingir determinados “fins”. Sobre os “fins” do comportamento humano, a economia enquanto ciência é totalmente neutra. Argumentar que a economia estabelece leis cientificas em que os seres humanos devem organizar as suas vidas de modo a obterem o máximo de liberdade ou o máximo de igualdade pode, na realidade, tornar-se completamente absurdo. Ora vejamos um exemplo. Vamos supor que de um momento para o outro a conduta da sociedade portuguesa tornava-se menos consumista e mais imaterialista. Certamente que iria ocorrer uma queda da procura de automóveis, de telemóveis, de vinho, etc. Por outro lado o consumo de literatura, de arte, de teatro sofreria um aumento. No entanto, não seria necessário alterar as estruturas da economia para explicar esta nova sociedade. Do ponto de vista económico, ocorreria apenas uma alteração das relações de escassez. O que sai completamente fora do âmbito cientifico é declarar que um tipo de sociedade é melhor que o outro, ou que uma é economicamente mais feliz que a outra; e argumentar o contrário é afirmar que as satisfações dos vários agentes podem e devem ser comparáveis. De certeza que um epicurista desdenha o comportamento dum estóico e vice-versa; mas do ponto de vista cientifico quem deterá mais razão? Ora, tudo aquilo que a economia pretende clarificar é o conflito entre a escolha de vários fins, já que existe uma dotação limitada de recursos para os atingir.

Infelizmente, esta definição da economia é, excessivas vezes, subvalorizada por certos economistas. Em particular, é muitas vezes assumido que na “economia ortodoxa” os seres humanos são seres “racionais, maximizadores, e egoístas”, enfim, a tese do famoso “homo economicus”. Sobre a importância dada pela economia ao egoísmo, foi já clarificado que essa, como para qualquer outro “fim”, é  alheia no seu estudo. Quando os economistas assumem que os agentes adquirem os bens mais baratos que têm à disposição, fazem-no indiferentemente do objectivo final do consumidor (este pode querer apenas acumular um maço de notas para as ingerir numa refeição ou para entregar à caridade no SLB).  Do ponto de vista cientifico os sujeitos económicos podem ser egoístas, altruístas, ou uma combinação de várias motivações. Essas motivações não passam de um dado exógeno nesta ciência. Mas a falácia do homo eocnomicus assume uma dimensão diferente quando, em adição ao pressuposto que a economia preocupa-se com um determinado “fim”, assume também que os agentes seguem um determinado comportamento psicológico – toda a conduta humana é racional.

Entenda-se racionalidade como consistência de comportamento: se eu escolho A com a hipótese de B e B com a hipótese de C, então tenho de escolher A quando confrontado com C. Mas não será irracional para um agente ser totalmente consistente nas suas escolhas quando o custo de organizar todas as comparações possíveis é excessivamente elevado? Ou de igual modo, não viverão os agentes em ambientes caracterizados por incerteza onde certas escolhas são feitas sem uma completa compreensão das suas implicações? De facto, determinados fins podem ser inconsistentes entre si quando os recursos para a sua realização são limitados. Mas certamente que, mesmo nestas situações, a ciência económica não perderá utilidade. Muito antes pelo contrário. Permanecerá importante para colocar essas inconsistências em evidência. Este é um dos contributos mais importantes que a economia pode proporcionar à humanidade: permitir que os agentes tomem as suas decisões conscientes de que existem custos associados (muitas vezes bastante dissimulados), permitindo assim que as decisões sejam mais racionais. Um exemplo recente desta inconsistência refere-se a uma proposta de João Rodrigues para que Portugal aumente as tarifas alfandegárias (mesmo entre países da UE). Certamente que o objectivo é melhorar o bem-estar social. No entanto a imposição da tarifa será inconsistente com as condições em que as procuras individuais dos agentes sejam totalmente satisfeitas (outros argumentos económicos incluem a destruição de incentivos para a especialização onde a força de trabalho é mais produtiva e a restrição à absorção de tecnologias estrangeiras).

Apesar do objecto da ciência económica não depender desta restrição, é normalmente pressuposto que os agentes têm um comportamento racional. No entanto, a sua imposição tem apenas como objectivo a simplificação da complexidade da realidade de maneira a que seja possível estudar isoladamente um certo fenómeno económico de uma forma tratável (se este pressuposto for muito restritivo pode ser sempre levantado – ex. Ariel Rubenstein). Estes tipos de simplificações são, de facto, comuns em todas as ciências. Por exemplo é inegável que, na Física Clássica, o pressuposto da inexistência de atrito é frequentemente utilizado para se fazerem deduções úteis sobre uma realidade muito mais complexa.

Para voltar à pergunta inicialmente colocada por Pedro Lains, o que me parece mais preocupante é que em certos debates a componente cientifica da economia é distorcida sob argumentos intencionalmente falaciosos (ex.:provocação e respectiva resposta). Apesar de alheia à ciência económica, a discussão dos “fins” – decorrentes de ideologias partidárias e do exercício do poder – é muitas vezes confundida com a utilização mais eficiente dos “meios”. A imposição do homo economicus como construção cientifica da economia é um exemplo desse tipo de discussões.  Claro que uma compreensão clarividente da significância da ciência económica colocará sempre o homo economicus e a ciência em conjuntos disjuntos.

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3 respostas a A Disjunção do Homo Economicus da Ciência Económica

  1. Pingback: Sistemas políticos mudam mas os príncipios ficam « Mercado de Limões

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  3. Anónimo diz:

    ah????

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