Sobre Mercados e Estado – Freddie Mac e Fannie Mae

Na sequência de um comentário de João Rodrigues, decidi contribuir para o debate que hoje domina a imprensa norte-americana com o seguinte comentário:

Caro João Rodrigues permita-me complementar a sua análise com uma perspectiva um pouco diferente sobre o problema das Government Sponsored Enterprise (GSE): Freddie Mac e Fannie Mae.

Concordo consigo que o governo dos EUA foi efectivamente obrigado a nacionalizar as GSEs. De facto, as intrincadas relações do sistema financeiro norte-americano, uma regulação desleixada e capturada, e uma dependência nacional de capital do exterior, tornam a capitulação destes gigantes socialmente impossível. Um efeito de dominó parece verosímil e as consequências de um sistema financeiro descontrolado parecem afastar qualquer repugnância de adicionar a dívida destas instituições na albarda do contribuinte.

Mas como é que duas instituições com uma carteira de activos de qualidade ficam em tão má situação ao ponto de necessitarem de ajuda governamental? E como ficaram tão grandes? Para responder a esta questão é necessário ter presente que o governo nunca deixou de suportar a Fannie Mae, mesmo depois da sua privatização – que aconteceu simplesmente por razões contabilísticas e não teve qualquer fundamento económico. Surgida apenas para evitar a criação de um monopólio, a Freddie Mac seguiu pelo mesmo caminho. Isenções fiscais, processos burocráticos simplificados, acesso a linhas de crédito específicas, e muitas outras idiossincrasias ajudam a explicar como rapidamente estas instituições espezinharam toda a concorrência. Mais: o lobbying fortíssimo destas instituições em Washington capturou claramente os reguladores e políticos, permitindo que estas ajudas estatais se perpetuassem. Mas mais: a noção generalizada entre os investidores de que o governo dos EUA nunca deixaria de suportar a sua relíquia da New Deal e sua irmã mais nova (como de facto verificamos no domingo) fez com que o financiamento destas instituições fosse particularmente pouco oneroso, mesmo com níveis de endividamento vertiginosamente elevados. Conclusão: as GSEs acumularam dívidas de triliões, construído em cima de uma base de capital duns míseros biliões de dólares. Deve ficar bem claro que nenhum outro banco, do circuito livre do mercado, conseguiu construir tal montanha de dívida. Os investidores simplesmente pediriam uma remuneração muito elevada.

Mas eis que a economia recebe um choque. A crise financeira e o consequente paradoxo da desalavancagem começam a fazer mossa. Com algumas políticas adequadas do Fed e sustentadas por bases mais ou menos sólidas de capital, a maior parte dos bancos vai resistindo (com um ou outro sobressalto, e.g. Bear Sterns e Northern Rock). Mas por ironia, as verdadeiras grandes vítimas que se registam são as empresas suportadas pelo governo. As GSEs começaram a implodir. Nada que já não tivesse sido avisado atempadamente por diversos economistas (mas ignorado por políticos). Mas parece que tudo vai acabar por ficar bem agora que o problema passou para a esfera do contribuinte.

É claro que tudo isto não passa de uma grande falha de governação. Se o governo americano queria manter o apoio ao mercado hipotecário então deveria ter mantido a Fannie Mae nacionalizada para que as responsabilidades financeiras de tal política fossem devidamente avaliadas pelo eleitorado. Se pelo contrário o governo decidisse pela via do mercado, então deveria ter retirado as suas unhas e optado por não interferir. Nada disto foi feito. Ao invés criou-se algo que, não sendo uma coisa nem outra, distorce brutalmente a economia.

Mas sejamos menos severos com o governo. As ajudas governamentais às GSEs servem fundamentalmente para que estas transmitam os benefícios de um financiamento mais barato aos consumidores. Ainda que alguns economistas tenham demonstrado que esta transmissão de facto não acontece, porque razão haveria o governo de querer incentivar o mercado hipotecário? Para criar excesso de construção imobiliária? Ou preços de habitações que simplesmente descolem do preço do mercado de arrendamento? Bolhas especulativas?

É caso para dizer que o único mito que aqui vejo é o de se pensar que os problemas correntes resultam do mercado livre.

Tiago Tavares

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3 respostas a Sobre Mercados e Estado – Freddie Mac e Fannie Mae

  1. É “mossa”, não “moça”. E “sobressalto”; e “vítimas”, com acento.

    Bom post.

    Cumprimentos.

    LPedroMachado

  2. Já agora, se não se importar, podia ler os restantes artigos…de certeza que encontrará outros erros deste género.

  3. Levou a mal? Não era minha intenção! Repito que gostei do post. Fiz um comentário construtivo. Só ia corrigir o “mossa”, mas aproveitei e indiquei as restantes falhas, que não mereceriam reparo por si mesmas.

    Como deve calcular, não estou com paciência para lhe andar a indicar erros. Não sou leitor deste blogue; cheguei aqui via Portugal Contemporâneo, creio.

    Cumps
    Pedro

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