Uma Guerra Temporária…Por Enquanto

Não é incomum haver pequenos conflitos entre casais unidos pelos laços do matrimónio quando uma certa  exigência por uma das partes não é concedida pela outra. Para um elemento compreensivo e paciente, seria de todo desproporcionado iniciar uma acção de divórcio somente porque a concessão não foi proporcionada. Partir para uma conflito total seria contraproducente especialmente quando os custos do divórcio são elevados ou quando a exigência tem um custo baixo. No entanto, mesmo temporário, um conflito deixa normalmente ambas as partes em pior situação quando comparada àquela que teriam caso existisse cooperação. Ainda assim, esta será uma solução óptima se não for possível determinar com certeza se a não correspondência da exigência deriva de factores exógenos e não imputáveis à contraparte ou se resulta apenas de um bluff. O início de um conflito temporário serve como acontecimento dissuasor com o objectivo de realinhar incentivos para a cooperação. Assim, em determinadas condições, casais podem viver indefinidamente em equilíbrio, como que oscilando movimento pendular entre ódio e amor. De facto este será um comportamento racional.

Com pouco esforço pode-se extrapolar este exemplo da vida doméstica para a política internacional. Em particular, o conflito armado actual na Ossétia do Sul que opõe a Rússia à Geórgia, parece encaixar que nem uma luva.

Detendo interesses importantes na região da Ossétia do Sul, a Rússia tem vindo a exigir à Geórgia que esse território (parte integrante do país dos Caucassos) se mantenha com um estatuto de independência especial. Em causa está o controlo exclusivo de Moscovo no fornecimento de hidrocarbonetos à Europa Ocidental (via oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan). A orientação pró-russa dos líderes da Ossétia do Sul serve da melhor maneira os interesses do Kremlim que por sua vez tem favorecido a desagregação da região (por exemplo através da emissão de vistos). Não tendo capacidade de fazer face ao poder do país vizinho, e apesar de contrariada, a república agredida da ex-URSS tinha vindo a cumprir com a concessão exigida pela Rússia. No entanto a eleição de um presidente georgiano mais hostil ao imperialismo russo Mikheil Saakashvili – refreou a vontade da manutenção do status quo. Progressivamente a Geórgia readquiriu o controlo de algumas partes da Ossétia. Com alguma desconfiança e incerteza face a esta nova situação, os russos foram exigindo novas concessões que a Geórgia pareceu ignorar. As negociações para adesão à NATO e os progressos no controlo da região separatista foram por fim a gota de água. A entrada numa situação de guerra total será pouco verosímil face aos custos que um conflito desse tipo acarretaria para ambos os países e também face à baixa importância que o território da Ossétia tem para a Geórgia. Mas ao encetar uma guerra rápida o Kremlin espera realinhar o comportamento do governo georgiano para o cumprimento das suas exigências. Ambos os países sofrem desnecessariamente, quando podiam sentar-se à mesa e negociar as mesmas concessões com palavras em vez de balas. No entanto esta guerra temporária terá um importante benefício para o país agressor. Para além de recuperar (pelo menos temporariamente) as concessões exigidas, haverá um melhoramento ex-ante dos incentivos à cooperação entre os dois estados em conflito, i. e., a Geórgia terá maior disponibilidade em respeitar as exigências. Em todo o caso esta forma de resolução do conflito será sempre bastante superior à alternativa de guerra total, mais prolongada, e penosa estará afastada.

Entretanto o acordo de paz alcançado estará longe de ser permanente. Apesar de realinhados os incentivos para o cumprimento das exigências russas, poderão existir situações inimputáveis para o governo da Geórgia que impossibilitem a realização das concessões exigidas (como provocações pelos líderes da Ossétia, instabilidade política ou económica, etc.). Nessas situações, em caso de desconhecimento das verdadeiras razões pelo qual o “acordo” não foi cumprido, o país agressor poderá absolver o outro pela não concessão. No entanto haverá um escalonamento previsível com novas exigências em cima das antigas até que a situação rebente numa nova guerra temporária. Países suficientemente pacientes deverão preferir estas guerras temporárias face às guerras totais, enquanto persistirem exigências. Pares como Índia – Paquistão, Palestina – Israel constituem exemplos deste tipo de comportamento. Será que a Rússia e a Geórgia se enquadram nesse mesmo quadro? Por enquanto parece haver paz na região. Mas este estado permanente?

Sobre a racionalidade economica envolvida nas guerras ver Pierre Yared (2008): “A Dynamic Theory of Concessions and War “.

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