Análise à Economia Americana

Na ultima semana foram bastante noticiadas as políticas económicas que têm sido implementadas nos EUA, face ao recente abrandamento da actividade económica. A diligência tem sido notável na implementação da política monetária mas ainda mais nas decisões de política fiscal. No entanto uma rápida e extensiva utilização de tais instrumentos políticos pode ter mais custos que benefícios. Para além do mais é aconselhável cautela na utilização simultânea de diferentes políticas de estímulo económico. Mas determine-se primeiro quais as razões e se há razões para a necessidade de tais estímulos.

No último trimestre de 2007 observou-se um claro abrandamento do crescimento do PIB da economia dos EUA. Dum crescimento acima do potencial no 3º trimestre de quase 3%, passa para um moderado crescimento (valores esperados e ainda não confirmados) entre 1.5% e 2% abaixo do seu potencial.

Esta rápida queda será principalmente explicada pela depressão que se instalou no mercado habitacional, com quedas inéditas no preço de novas casas e stocks crescentes representando excesso na produção. Obviamente que o investimento neste sector da economia abrandou fortemente. A turbulência vivida nos mercados monetários (dívida de curto-prazo) e o aumento do crédito vencido, não só no mercado hipotecário mas também no mercado de cartões de crédito, também terá ajudado um pouco. No entanto o risco maior está centrado no mercado de trabalho, que já desde o inicio do ano de 2007 se encontrava num decrescimento moderado. Esta preocupação no crescimento económico vinha sendo materializada na evolução dos principais índices accionistas.

Na sequência destes desenvolvimentos a Reserva Federal decide actuar. No entanto a resiliência do mercado monetário obrigou o banco central a tomar medidas bastante severas para vergar as taxas de juro interbancárias, fosse por injecções sucessivas de liquidez, fosse por descidas quase contínuas da taxa directora de refinanciamento. Esta actuação tem como objectivo restaurar a confiança no mercado interbancário, mas acima de tudo esta é a receita conhecida de política monetária (pela regra de Taylor) em que se o produto está abaixo do potencial, desce-se taxas de juro. É uma política de estímulo da procura agregada, quando a economia têm capacidade de produção disponível. Baixando o custo do dinheiro a que os bancos se financiam, estes baixaram os juros e aumentam a acessibilidade ao crédito para as famílias e empresas. A inovação nestas últimas operações relaciona-se com a agressividade das intervenções, que será justificada pela dificuldade na transmissão da política monetária do banco central.

Acrescido a estas intervenções no mercado monetário há o pacote político de estímulo fiscal. Este pacote terá cariz mais política que económica, uma vez que está mal desenhado e dificilmente terá impacto significativo no aumento da despesa das famílias americanas. Não estou a ver alguém que receba um cheque de $2000, com dificuldades no pagamento das suas dívidas e consciente do risco de perder o emprego, a ir a correr ao centro comercial mais próximo para gastar tudo, como que cego pela cor do dinheiro. É muito mais provável que esse cheque seja poupado para tempos piores, ou que seja utilizado para amortizar dívidas. Mas ao contrário do efeito na economia, o efeito político deverá ser positivo. Obviamente que é ano de eleições. Contudo os efeitos desta política fiscal não se esgotam na sua ineficácia. Esta aumenta a incerteza sobre a evolução da economia quando a Reserva Federal toma as suas decisões. O próprio Keynes era a favor da sua utilização parcimoniosa e somente quando a política monetária deixasse de funcionar (situações denominadas de armadilha de liquidez).
A rapidez da actuacção do Fed parece ter afastado riscos de recessão na economia norte-americana para o ano de 2008 (apesar de que as probabilidades nas casas de aposta continuam mais a favor dessa ocorrência). Na próxima 3ª feira dia 29 o mercado espera mais uma descida de 50 pontos base na taxa de referencia do banco central, que estimulará ainda mais a economia. Para além do mais a queda sistemática do USD começa a surtir efeitos positivos nas exportação americanas, puxando pela economia. Existem no entanto vozes discordantes da condução da política monetária nos EUA. Alguns economistas argumentam que os estímulos não serão suficientes para afastar a economia da recessão criticam o ímpeto do Fed na redução das taxas de juro e que não haverá espaço para mais descidas quando realmente necessário (os comentários recentes de Krugman aqui e de outros economistas aqui).
Na minha opinião os riscos de recessão parecem afastados devido a uma actuação rápida das autoridades. Mas os efeitos secundários de uma sobre-dosagem deverão produzir efeitos desagradáveis na economia americana. A excessiva activação da procura, com sucessivas descidas nas taxas de juro e pacotes de redução fiscal, deverá desviar a economia para um crescimento forte do consumo. Para responder a esse consumo crescente a produção interna terá de crescer mas quando esta se encontrar perto da sua capacidade restará apenas duas alternativas. Ou aumento das importações, hipótese não verosímil dado o nível do défice externo dos EUA, ou o aumento generalizado dos preços por parte de empresas no limite da sua capacidade, que modere ímpetos consumistas. Com o preço dos bens mais caros, as famílias exigirão salários mais elevados criando-se assim uma espiral inflacionista (para não falar da inflação de activos).

Esperemos esta semana os números dos EUA (produto, desemprego, e juros).
Actualização:
No último trimestre de 2007 os EUA cresceram apenas 0.7% bastante abaixo do esperado. A política agressiva da Reserva Federal parece justificável. Esperemos pelo menos que seja suficiente.
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