Ser Enganado Pelos Números. A Saúde nos EUA

Recentemente surgiu um estudo comparativo da eficácia de sistemas de saúde a nível internacional, atribuindo paradoxalmente uma péssima classificação ao sistema de saúde norte-americano, o país que mais gasta em saúde por pessoa (USD 6000 por ano). As conclusões do estudo baseiam-se na medição de mortes evitáveis por devidos cuidados médicos. Uma leitura desse estudo permitiria concluir imediatamente a irrelevância empírica desse estudo. No entanto muitas pessoas tomaram como válidos os seus resultados. Um bom exemplo de como se pode ser enganado pelos números.

A pedido numa discussão noutro blog faço aqui um esclarecimento que justifique a validade nula desse pretenso estudo de Mckee e Nolte. Tenho de o fazer uma vez que ninguém que se possa considerar economista leu o estudo (o acesso é pago), pois essa leitura eliminaria qualquer inferência que se poderia fazer do mesmo. Com negligência comparável vários artigos sugeriram, ou que as elevadas somas monetárias aplicadas no sistema de saúde norte-americano, entre contribuições privadas e públicas, teria uma eficiência miserável (The Economist), ou que o capitalismo é uma farsa (substituam-no pela Gulag) com “resultados desastrosos na área da saúde” (Ladrões de Bicicletas). Noto no entanto a diferença de estilos entre os dois artigos referidos: no primeiro o suposto estudo levanta questões; no último justifica conclusões (este é um óptimo exemplo de uma preposição ad-hoc).

O estudo intitulado “Measuring the Health of Nations” contém inúmeras falhas que inviabiliza as conclusões que os autores desejam retirar, sintetizada nos seguintes 2 gráficos.


Em primeiro lugar convém referir aquilo que os autores entendem como “mortes evitáveis”. Estes consideraram que mortes evitáveis são todas aquelas derivadas de um conjunto de doenças ou acontecimentos arbitrariamente definidos e sem um critério muito específico:

  • Ischemic Heart Disease (IHD);
  • Outras doenças circulatórias;
  • Neoplasms (alguns cancros);
  • Diabetes;
  • Doenças respiratórias;
  • Condições cirúrgicas erros médico;
  • Doenças infecciosas;
  • Perinatal, congenital, and maternal conditions;
  • Outras (número muito pequeno);

Isto significa que, por exemplo, uma morte de ataque cardíaco entra nas estatísticas produzidas como “morte evitável” por efectivos cuidados médicos. A única coisa que o estudo compara é o rácio de todas as mortes deste conjunto de causas em relação à população total para dois momentos distintos do tempo. O estudo não tem em consideração as condições particulares das mortes e qual a parte das mortes imputáveis à falta de cuidados de saúde e qual a parte devido a outros factores. Sublinho que o estudo apresenta como evitáveis todas as mortes de causas acima referidas.

Apresentando de seguida a desagregação dos resultados pelos autores retiram-se as seguintes conclusões.



Na primeira tabela constata-se que os países da costa mediterrânica apresentam um número médio de mortes por doenças cardíacas (IDH) na população masculina mais baixo que os restantes países. A segunda tabela mostra a desagregação dos resultados por doenças para alguns países. Em 2003 observa-se que a taxa de mortalidade evitável para França é 51 pontos inferior à dos EUA. Desses 51 pontos, 40 pontos é explicado pela diferença nas taxas de mortalidade relativamente a doenças cardíacas, circulatórias e diabetes. Ora está totalmente comprovado que a taxa de mortalidade dessas doenças está relacionado com os hábitos alimentares e estilos de vida. Países como os EUA, com maus hábitos alimentares, têm índices de incidência destas doenças muito superior a países como a França com melhores hábitos alimentares (devido à dieta mediterrânica mais saudável), e como tal têm um automaticamente um número superior de mortes devido a estas doenças. Tal não significa que o sistema de saúde de Países como os EUA é necessariamente inferior. Este estudo não toma em consideração estas diferenças de hábitos alimentares ou estilo de vida na eficácia do sistema de saúde. Para avaliar essa eficácia o denominador da taxa de mortalidade deveria ser a incidência da doença e não a população total como foi utilizado. Com este argumento qualquer ilação sobre a qualidade dos sistemas de saúde neste estudo fica totalmente inviabilizada.

Mas o facto mais ridículo do estudo é o cálculo das mortes por doenças cardíacas (IDH). Conscientes do argumento utilizado anteriormente (de que factores ambientais influenciam as taxas de mortalidade, independentemente do sistema de saúde), os autores tentam corrigir a medição das mortes por IDH. Para isso baseiam-se num estudo anterior feito para a Nova Zelândia que determina que nesse país 50% das mortes podem ser atribuídas a factores ambientais e 50% a factores relacionados com factores relacionados com o sistema de saúde. Como tal decidem multiplicar por 50% as taxas de mortalidade de IDH para todos os países para eliminar o impacto dos factores ambientais. RIDÍCULO. Se os factores ambientais são específicos para cada país não se pode simplesmente multiplicar o mesmo factor implícito da Nova Zelândia para todos os outros países. Hipoteticamente os EUA devem ter uma percentagem de mortes de IDH atribuíveis a factores ambientais de 70% e a França de 30%. A falta de conhecimento estatístico implicou a inclusão deste erro grosseiro. RIDÍCULO. Toda e qualquer conclusão dum estudo assim não poderá ter qualquer validade.

As mortes por doenças que menos estarão relacionadas com factores ambientais e mais com cuidados médicos da 2ª tabela será cancro que terá uma relação muito directa com factores hereditários. Ora neste campo (comparável) a América é o país que melhores resultados têm, o que poderá ser atribuído a factores médicos e do seu sistema de saúde.

Faço ainda uma chamada de atenção para potenciais erros de medição nos erros cirúrgicos que deverá variar entre diversos países. Para além do mais os EUA terão uma maior taxa mortalidade atribuível a erros cirúrgicos pois também têm um maior número de intervenções cirúrgicas por pessoa.

Para os mais interessados aconselho a visita às hiperligações e Falácias seguintes:

Hiperligações:

Falácias típicas sobre a saúde nos EUA

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