Desigualdades Salariais em Diferentes Países

O crescimento das desigualdades salariais é uma preocupante tendência das últimas décadas. Sobre esta muitas explicações têm sido dadas, sendo as mais comuns as relativas ao crescimento do comércio internacional, perda de poder dos sindicatos, aumento da imigração, desregulamentação económica, liberalização laboral e inovações tecnológicas. Este artigo vai-se cingir nesta explicação, que na minha opinião é a mais importante. Independentemente da explicação das causas, face a crescentes preocupações, Governos de diferentes países tomaram diferentes medidas, com diferentes resultados.

Num outro blog (ladroesdebicicletas.blogspot.com) João Rodrigues refere, com pesar, as consequências negativas do aumento das desigualdades salariais para a França. (a minha resposta pode ser consultada nesta hiperligação). É ainda referido a experiência diferente doutros países tais como a Dinamarca e a Suécia. No entanto para perceber as diferentes experiências convém perceber a origem da fonte dessas desigualdades.

O aumento das desigualdades salariais é tradicionalmente explicado entre economistas pelo crescimento enviesado da produtividade para os trabalhadores qualificados em relação aos desqualificados nas últimas décadas. Este facto deriva de uma rápida implementação tecnológica nos anos 80 e inicio de 90, materializada no aumento da utilização de computadores e serviços de informação que beneficiou principalmente a produtividade dos trabalhadores mais qualificados (pense-se no impacto para as dactilógrafas). Para manter o rácio emprego desqualificado e qualificado constante torna-se evidente que os custos para as empresas do trabalho têm de aumentar para os trabalhadores qualificados em relação aos desqualificados. A solução de mercado é o aumento das diferenças salariais de trabalhadores qualificados para trabalhadores desqualificados, que desincentiva as empresas a contratar apenas trabalho qualificado (mais caro). Assim a quantidade de emprego procurado pelas empresas de trabalho não qualificado e qualificado mantém-se constante, à custa do aumento das desigualdades salariais.

Os EUA, Reino Unido e Coreia do Sul são bons exemplos de países que deixaram esta tendência a cargo do mercado, com níveis de desigualdades salariais muito elevados (e tributações salariais muito baixas). Para diminuir a importância desta solução de mercado a França aplicou medidas de tributação nos empregos mais qualificados em relação aos menos qualificados (tributação altamente progressiva) tendo desigualdades salariais abaixo da média da OECD, na linha da Dinamarca. (dados consultáveis no Employment Outlook 2007 da OECD)


No entanto uma solução alternativa consiste em diminuir a quantidade de trabalho desqualificado através da requalificação dos trabalhadores para que a diferença de produtividade entre estes dois tipos de trabalhadores diminuía. É claro que esta solução gerará um desemprego elevado, embora de carácter temporário. Esta foi a solução seguida pela Suécia e os resultados saltam à vista com desigualdade salariais mais baixas do mundo. O custo de tal resultado foi o disparo do desemprego nos anos 90 de valores de ~2% para ~10%. Na minha opinião o benefício superou o custo. (o principal indicador utilizado foi o rácio de rendimento salarial do 5º decil para o 1º calculados numa base normalizada pela OECD).

Numa altura em que o desemprego em Portugal parece crescer dia após dia, mesmo em condições económicas de crescimento que o tornariam improvável, espera-se que este seja fugaz mas incisivo. Incisivo na reestruturação económica para voltar a valores aceitáveis. Mas acima de tudo, incisivo na reestruturação de qualificações para reduzir as elevadas desigualdades salariais (sem desincentivar o crescimento).

Aconselho a consulta das seguintes hiperligações para este artigo para os mais interessados:

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2 respostas a Desigualdades Salariais em Diferentes Países

  1. contestatario diz:

    O modelo de gestão baseado em excelência no topo e decréscimo da responsabilidade de uma forma piramidal é um factor grave a ter em conta uma vez que as desigualdades salariais apenas aceleram o fosso e alargamento da própria pirâmide.
    A responsabilidade nos resultados dos gestores no topo com o melhor pacote salarial é minada pela desconfiança e falta de vontade de uma “plebe” sub assalariada. Ver os números comparativos do Eurostat.

  2. doméstica diz:

    Talvez se devesse reflectir sobre os baixos salários auferidos pela classe operária, designadamente pelas mulheres,comparativamente aos rendimentos auferidos pelos “subsidio dependentes”, como uma das possíveis causas para a aconodaçáo, de uns e de outros à sua situação, não se mostrando disponíveis para os sacrifícios e trabalho inrentes a uma requalificação ou a uma maior formação inicial…

    Quando o trabalho “desqualificado” puder ser feito por trabalhadores qualificados, pagos como tal, as desigualdades salariais diminuem…

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