Brisa do Oriente

No ímpeto de decidir, existe um risco de não se prever a completa abrangência do impacto da escolha que se faz. Em economia esse risco é particularmente importante, dada a natureza complexa das interacções que exibem as diferentes variáveis. Na sua última decisão de política económica, a China, parece esquecer-se que sob areias movediças, o bom senso aconselha a parcimónia dos movimentos. O risco é ficar atolado com os seus próprios actos.

Com a escalada do preço dos alimentos a China termina o ano de 2007 com a decisão de tributar as exportações de alguns alimentos:

Dec. 30 (Bloomberg) — China, the world‘s biggest grain producer, will tax
exports of wheat, corn and rice to increase domestic supply and control rising
food prices. Exporters of wheat will start paying a 20 percent tax on Jan. 1,
while the tax for corn and rice was set at 5 percent, the Finance Ministry said
in a statement on its web site today.

Ora uma das principais premissas dadas como adquiridas em economia é que o comércio livre aumenta o bem-estar da população que beneficiar deste. Para além do comércio ser um exercício da liberdade de cada agente económico (esses agentes escolhem apenas o comércio se beneficiarem deste), pode-se argumentar que o comércio livre distribui o trabalho para as actividades onde esse trabalho é mais produtivo (argumentos que remontam ao séc. XVIII com Smith e Ricardo). Mas certamente que qualquer conselheiro político chinês já conhece este tipo de argumentos. Então o que pode justificar esta medida?

Dos modelos de economia internacional, o impacto de uma imposição de tributação sobre as exportações reflecte-se num desvio dessas exportações, que passam a ter de suportar uma taxa, para a economia doméstica. Este processo provoca uma redução dos preços domésticos, em relação aos preços mundiais. Caso a China não seja um importante produtor para o mercado mundial, pode-se esperar que o preço dos alimentos não suba para o mercado externo. Relativamente ao bem-estar, os consumidores beneficiam com a descida doméstica dos preços, mas os produtores perdem bastante mais com a mesma, já que para além de terem de vender a sua produção a um preço inferior têm ainda de pagar um imposto se ainda tiverem capacidade para exportar. Obviamente que o governo Chinês beneficia com a medida através de arrecadação fiscal, embora não tanto como aquilo que os agricultores perdem (no caso do país não ser muito importante para a produção internacional). Este modelo é normalmente esquematizado por gráficos padrão utilizados pelos economistas:


Segundo este simples modelo a China terá um prejuízo geral com a sua política económica. O ganho líquido da sua política seria positivo se a redução da oferta mundial de alimentos, provocasse uma subida elevada no preço mundial destes, permitindo que parte da tributação fosse suportada pelos importadores. Tal não se deverá verificar já que a China é um exportador líquido quase insignificante no mercado mundial como verificam os dados da FAO das Nações Unidas.

Terão de ser questões sociais que justifiquem esta política. É verdade que esta é uma política eficaz na redução dos preços que os consumidores chineses pagam pelos seus alimentos. Na lógica dos governantes, a redução dos preços aos consumidores reduzirá a instabilidade social de uma inflação galopante e aumentará as receitas do estado para futuras transferências sociais. Uma análise mais cuidada, e tendo em conta as implicações que esta política pode vir a ter em diversos níveis, ataca este tipo de argumentos em pelo menos dois aspectos:

  1. Só por ingenuidade é que se pode acreditar que as receitas que derivarem desta tarifa servirão para fazer transferências sociais para quem mais sofre com a subida do preço dos alimentos. Pelo menos não num país com quase um trilião e meio de dólares em reservas cambiais. Esta política de poupança forçada é em parte responsável que a parte de salários seja inferior a 40% (e em queda) do PIB chinês;
  2. Certamente que será contraproducente piorar as condições de troca (através da imposição da tributação), do sector rural, onde a maior parte da população chinesa tem a sua ocupação (quase 40%). Não se deve esquecer portanto que não só de consumo barato se melhora as condições da população mas também através de melhorias no rendimento do seu trabalho. Dado que a maioria da população, e na realidade a mais pobre, depende da agricultura, a imposição da taxa vai piorar o bem-estar geral e aumentar as desigualdades sociais (que já de si são enormes).

Claro que existe sempre o argumento que os responsáveis políticos estarão a fazer apenas política contra-cíclica, numa altura em que ela é necessária, dado a tendência de crescimento demasiadamente rápido (inflacionista) da economia Chinesa. No entanto uma valorização controlada do yuan serviria esse propósito e ainda melhoraria brutalmente as condições de todos os consumidores chineses, possibilitando o acesso destes ao consumo de bens mais baratos do exterior (é na realidade justo que seja a população a beneficiar de crescimentos explosivos de um país e não os cofres de algum banco central).

Os excessos de fim de ano parecem não ter dado tréguas uma vez mais aos mesmos. A pobre população chinesa. Se é certo que muitas medidas dos governos chineses têm sido a correcta no sentido de aumentar a riqueza no seu país, é necessário não esquecer que de nada serve a riqueza se esta não for transmitida para as pessoas comuns. Num país com tradição de sabedoria milenar esta preocupação será a mais sábia para 2008.

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2 respostas a Brisa do Oriente

  1. Pedro Braz Teixeira diz:

    Em vez de “desvalorização” do yuan queria dizer “valorização”, certamente.

  2. Tiago Tavares diz:

    Certamente que sim.O correcto é valorização do yuan. Agradeço a observação.

    O erro vai ser imediatamente corrigido.

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