Mercado de Limões

Frases por Abel Salazar e Stuart Mill

Setembro 14, 2009 · Deixe um Comentário

A certa altura, num dos últimos debates televisivos para as próximas eleições, um dos intervenientes tentou citar uma famosa frase de Abel Salazar:

“Um médico que só saiba de medicina nem de medicina sabe”

O que me fez imediatamente lembrar uma outra famosa frase por Stuart Mill:

“a man is not likely to be a good economist if he is nothing else.” cit. por Lionel Robbins (p.165)

Afinal a medicina não deve ser assim tão diferente da ciência económica.

→ Leave a CommentCategorias: Economia

Frank Zappa – I’m the Slime

Setembro 6, 2009 · Deixe um Comentário

Já em 1973 o estado geral da situação política/comunicação social/sistema empresarial deste Portugal do séc. XXI era descrito entre os mais elevados círculos artísticos e culturais por esse mundo fora. Dos EUA, Frank Zappa com todo o carinho, directamente para os portugueses:

Frank Zappa : I’m The Slime

I am gross and perverted
I’m obsessed ‘n deranged
I have existed for years
But very little had changed
I am the tool of the Government
And industry too
For I am destined to rule
And regulate you

I may be vile and pernicious
But you can’t look away
I make you think I’m delicious
With the stuff that I say
I am the best you can get
Have you guessed me yet?
I am the slime oozin’ out
From your TV set

(…)

→ Leave a CommentCategorias: Economia
Tagged: , ,

LCARS – Ficção Científica ou Realidade?

Setembro 1, 2009 · Deixe um Comentário

A Wolfram, empresa de software conhecida pela aplicação Mathematica, decidiu entrar no mercado de motores de pesquisa web. O WolframAlpha é o nome escolhido para este motor caracterizado pela utilização sofisticada de inteligência artificial.

Basicamente esta página responde a questões colocadas pelo utilizador, listando informação relevante. Por exemplo, se alguém quiser saber o valor lógico da afirmação “p implica q e p e não q“, basta apenas digitarp implies q and p and not q“. Entre outras coisas o computador vai retribuir automaticamente a seguinte informação:

MSP26619765f9adb0f784800006836d8g797ebb8aaMSP27119765f9adb566632000015h62g605604b883MSP28119765f9adb8eaaga00003ei73da6gea42if4

Para ficarmos com uma ideia das potencialidades deste novo site, e como este é um blogue de economia, deixo aqui algumas questões que eu próprio coloquei:

Produtividade de Portugal comparada com a de Espanha (rácio)
MSP7119765gi7f0335bh600002i6d066831ae55d1MSP8719765gi7f06d10c100002ahd667a9976h460

Valor das exportações versus importações em Portugal:

MSP50719765d74g83dhi18000019246geb67d8a787MSP43319765d74g7eibd9200005ed2fcii320d25f5

Distribuição do rendimento na União Europeia (após impostos):

MSP71319765b12480a5d3400005edc6a11209a2430MSP68719765b12befbd1d900002c1dg3f16h5b1ebi

Demografia em Portugal (note-se na posição mundial!)

MSP27219765f8ce0dded55000059ed633ef0eb2259

Claro que este motor de pesquisa contém ainda imensos problemas que necessitam de resolução. No entanto a página está ainda em versão de teste. Para já o início foi auspicioso com milhões de visitas em apenas 3 meses. Este pequeno passo pela Wolfram significa que computadores lendários como o LCARS podem vir a tornar-se obsoletos na literatura de ficção científica.

→ Leave a CommentCategorias: Economia
Tagged: ,

Erros de 1929, nunca mais

Julho 29, 2009 · Deixe um Comentário

ED-AJ874_bernan_G_20090720153805

Um dos mais graves problemas da Grande Depressão foi a queda de preços. Entre 1929 e 1931 os preços nos EUA caíram mais de 25%, um efeito que terá contribuído para a evolução nefasta da economia americana – fortemente baseada no crédito (para ver quais as consequências negativas de uma deflação consultar aqui).

Para alguns economistas, esse comportamento adverso dos preços, derivou directamente de políticas erradas da Reserva Federal. Nesta corrente de opinião, foi a inacção e falta de credibilidade das políticas do banco central que fizeram com os preços tivessem uma evolução tão negativa.

Será que estamos a cometer o mesmo erro do passado? Dificilmente. Lembremos-nos o que disse Ben Bernanke em 2002, na comemoração do nonagésimo aniversário de Milton Friedman, relativamente à Grande Depressão e dirigindo-se directamente ao seu Professor e a Anna Schwartz (co-autora de Friedman):

Sim têm razão, fomos nós que a criamos. Estamos desgostados. Mas graças a vocês, isso não irá mais acontecer.

Mas será que estas palavras estão a ter paralelo nesta crise de 2007 que vivemos. Avaliando pela evolução dos preços, parece que sim. Deixo aqui a minha última figura que compara os preços dos bens ao consumo em 1929 e em 2008. Os riscos de deflação parecem afastados. Entre Dezembro de 2008 e Junho de 2009, a taxa média anualizada de inflação já ultrapassou os 2%. O grande objectivo agora é que os EUA se mantenham por aí.

inflation

Evolução do Índice de Preços ao Consumidor nos EUA nos episódios da Grande Depressão e da crise de 2007-presente. Fonte FRED.
Nota: A gravura no topo do artigo foi retirada do Wall Street Journal aqui.

→ Leave a CommentCategorias: Macroeconomia · Política Económica
Tagged: , ,

Rendimentos decrescentes – uma resposta

Julho 15, 2009 · 4 Comentários

Em resposta ao artigo que escrevi anteriormente o Carlos Santos  argumenta o seguinte:

Enquanto a maioria dos economistas continuarem a encarar o mundo desta forma – “a minha teoria está certa, os dados que se ajustem até baterem certo com ela” – estão a trabalhar numa não ciência.

Sem querer elaborar muito sobre o assunto – até porque o Luís Conraria já teve uma interessante troca de argumentos com o Carlos Santos – vou apenas comentar um aspecto desta frase que parece ter passado despercebido. Em economia como em qualquer outra ciência devemos ter bem presente a distinção entre os termos ‘dado’, ‘previsão’, e ‘estimativa’. O primeiro é um acontecimento já ocorrido que pode ser mensurável. Já o termo ‘previsão’ resulta da aplicação de um modelo teórico – conjunto de variáveis que estão relacionadas por uma série de restrições – independentemente desse modelo ser um político, econométrico, ou qualquer outro. Posteriormente os modelos podem ser utilizados para vários propósitos, por exemplo a explicação de desenvolvimentos alternativos da realidade. Temos então uma ‘estimativa’. O relevante aqui é que as estimativas são um resultado que deriva de uma teoria.

Como os €21 biliões são uma ‘estimativa’ e não um ‘dado‘ a preposição do Prof. Carlos entra numa circularidade que pode ser resumida da seguinte maneira: se a minha teoria está certa, então a estimativa (minha teoria) que se ajuste até bater certo com ela. Temos uma clara tautologia. Uma tautologia que obviamente não tem qualquer relação de equivalência lógica com ciência. Já com ‘dados’ não poderíamos dizer o mesmo porque estes não se ajustam. Se não verificarem a teoria, então esta é falsa; mas se verificarem, a teoria pode ou não ser falsa. É por isso mesmo que convém sempre fundamentar bem as teorias subjacentes (ou neste caso, estimativa) quando não existem dados suficientemente adequados para a refutar. E não é isto que é feito no manifesto dos 51 quando descrevem a estimativa dos €21 biliões. Em parte nenhuma do documento conseguimos perceber qualquer justificação teórica àquele número.

Para finalizar voltemos ao tema central que originou a discussão: retornos decrescentes no factor trabalho. Na realidade existem vários estudos sérios a identificar que o factor trabalho apresenta rendimentos decrescentes (ex.: Eisner; Burnside, Eichenbaun, e Rebelo) em economias industrializadas (pelo menos no curto-prazo). Claro que isto não significa que nunca existam situações de retornos crescentes, mesmo no factor trabalho. Os exemplos clássicos incluem efeitos de aglomeração, emparelhamento (matching), propagações tecnológicas (spillovers), conhecimentos complementares. E estes efeitos, também conhecidos como externalidades, existem mesmo e têm implicações muito reais. Basta pensarmos que num mundo em que só existissem rendimentos decrescentes nunca haveria engenheiros indianos interessados em imigrar para os EUA quando o seu trabalho especializado é tão escasso no seu país e tão abundante no destino pretendido. Estes imigram para os EUA porque o seu rendimento aumenta quando trabalham juntos de pessoas com o mesmo nível de competências e beneficiam do conhecimento complementares existentes, por exemplo, em Silicon Valley. No entanto, estes fenómenos não eliminam necessariamente os efeitos tradicionais que referi: mais empregados para um mesmo número de máquinas diminui o produto adicional de cada um deles (devido a congestionamento, distracção, etc.). Isto é como em tudo o resto na economia – existem benefícios e custos; ou, no presente caso, existem efeitos que levam o factor trabalho a ter rendimentos decrescentes e outros que o levam a ter rendimentos crescentes. Agora, a questão fundamental que me levou a escrever o artigo anterior prende-se com o seguinte – será que, quando apresentaram no manifesto que a produtividade média do trabalho aumentaria se o desemprego desaparecesse do dia para a noite, tiveram em consideração tais externalidades positivas? E porque é que esses fenómenos aplicar-se-iam tanta importância numa economia como a portuguesa? A resposta a estas questões eu não encontro no manifesto.

→ 4 CommentsCategorias: Economia · Microeconomia
Tagged: , ,

Retornos decrescentes e manifestos de economistas

Julho 3, 2009 · 11 Comentários

A ideia de que existem retornos decrescentes é muito simples mas de implicações muito práticas na economia. Imaginemos então a seguinte história. Vamos supor que eu quero fazer uma omelete de bacalhau com tomate à portuguesa para 4 pessoas. A melhor receita para realizar este prato envolve umas determinadas proporções dos ingredientes: 250 gramas de bacalhau, 12 ovos, 100g de manteiga, etc.. Mas vamos supor que aparece uma pessoa adicional para a refeição.  Temos assim duas formas diferentes para aumentar a produção da omelete. Ou aumentamos equitativamente todos os ingredientes; ou aumentamos apenas 1 ingrediente – por exemplo ovos – de maneira a que a quantidade final chegue para todos. A questão nuclear é que o aumento de ovos nesta última solução terá de ser muito maior do que quando todos os ingredientes crescem por igual. Aliás, se continuássemos a aumentar o número de ovos sem aumentar os demais ingredientes, chegaríamos  rapidamente a um ponto em que a refeição ia ficar intragável – uma diminuição efectiva da produção final.

Transpondo este exemplo para a linguagem económica, aquilo que dizemos é que a produtividade média do ingrediente ovos diminui quando todos os outros ingredientes se mantêm constantes. Esta é uma relação conhecida em economia como retornos decrescentes: a contribuição marginal de um factor de produção decresce à medida que a proporção desse factor aumenta.

Passando agora para outro tema, vejamos aquilo que foi escrito no recente manifesto das 51 personalidades:

Uma taxa de desemprego de 10% é o sinal de uma economia falhada, que custa a Portugal cerca de 21 mil milhões de euros por ano – a capacidade de produção que é desperdiçada, mais a despesa em custos de protecção social.

Esta é uma afirmação que fica bem em qualquer manifesto que queira captar a atenção do leitor mais desatento. Mas será que reflecte argumentos económicos sérios? De facto, quando lemos esta frase surgem imediatamente uma série de dúvidas pertinentes: será que estes senhores defendem que se pode simplesmente passar para desemprego 0% (?); ou será legítimo somar a produção desperdiçada com a despesa de protecção quando essa despesa resulta apenas da redistribuição da própria riqueza produzida (?). No entanto, o que me atraiu mais neste excerto foi a estimativa dos €21 biliões de produção desperdiçada quando o desemprego é 10%. Como terá sido este número produzido? Vamos tentar descortinar esta questão através da aplicação da ideia dos retornos decrescentes, i. e., a produtividade média de um factor diminui quando aumentamos um factor de produção. Passemos então aos números.

Utilizando dados do Eurostat, verificamos que o PIBpm de Portugal em 2008 foi de €166.227 biliões. Nesse mesmo ano os números do emprego situaram-se 4.872 milhões de trabalhadores. Podemos assim calcular a produtividade média por trabalhador através da seguinte fórmula:

newfile10x

Isto significa que cada trabalhador português produziu em média um valor de €34117 durante 2008.

Seguidamente os autores do manifesto referem 10% de desemprego. E este valor pode ser traduzido num número de trabalhadores adicionais resolvendo a seguinte equação:

newfile12x

Logo, da eliminação dos 10% de desemprego resultariam 541386 novos postos de trabalho. Assim, e dada a estimativa de €21 biliões para o acréscimo do PIB resultante desse emprego (designemos como variável y), temos dados suficientes para calcular a nova produtividade média no cenário hipotético lançado no manifesto. Esta pode ser calculada por recurso à seguinte expressão:

newfile11x

E o valor resultante para a produtividade é de €34585 por trabalhador. Surge assim o resultado surpreendente que a produtividade média aumenta €467, mesmo quando adicionamos mais de 500 mil trabalhadores no emprego total mas mantemos constante todos os restantes factores de produção (tecnologia, capital, energia, espaço). Mas isto significa que não existem retornos marginais decrescentes para o factor trabalho em Portugal. É como se os desempregados admitidos neste cenário fossem muito mais produtivos que os actuais trabalhadores ou se aumentassem a produtividade dos trabalhadores existentes. Na realidade nada disto acontece. Recém empregados são em média menos produtivos que os empregados incumbentes (pois ainda não possuem conhecimentos específicos relativos ao novo emprego); e estes não aumentam a produtividade dos outros trabalhadores (por aplicação directa dos rendimentos marginais decrescentes). A conclusão é que a estimativa apresentada no manifesto 51 é altamente duvidosa. Algo que poderia ter sido identificado pela simples aplicação de um dos resultados mais elementares em economia.

O mais surpreendente é que os senhores que publicaram este manifesto são também os primeiros a criticar os programas de economia ensinada nas faculdades (ver “o debate não pode parar“; e este artigo). Nas suas opiniões, as noções básicas da  microeconomia (no paradigma neoclássico) deveriam ser menos consideradas por substituição de um ensino mais “pluralista”. Mas não é assim que as coisas funcionam. Sem conceitos elementares não é possível discutir com substância questões complexas. Mas claro que o ensino de teorias esdrúxulas – por exemplo a teoria do trabalho marxista – é mais fácil quando os estudantes são acríticos ou não compreendem os conceitos mais básicos da teoria económica (por exemplo o de retornos marginais decrescentes). Felizmente este manifesto não ficou consignado à uma sala de aula. As respostas vão aparecer.

.

ch08_e3Exemplo de uma função de produção com rendimentos marginais decrescentes (entre D e H)

.

→ 11 CommentsCategorias: Economia
Tagged: , ,

Artigos de opinião económicos em destaque

Julho 1, 2009 · Deixe um Comentário

Finalmente tenho algum tempo para retomar o acompanhamento da discussão económica feita em Portugal. E parece que há um novo manifesto de economistas. Mais tarde comentarei esse documento. Para já recomendo apenas a leitura de um artigo de opinião por Ricardo Reis e de uma entrevista a Kevin Murphy:

  • Em Inflação Negativa (hoje no i ainda sem link), Ricardo Reis, um dos melhores economistas portugueses, discute a questão da deflação numa abordagem muito económica: descreve os benefícios, custos, e áreas mais ambiguas (faz lembrar este artigo que escrevi há uns tempos) ;
  • A entrevista recomendada é do brilhante Kevin Murphy no excelente periódico da Reserva Federal do distrito do Minneapolis – The Region. O trabalho desenvolvido por este economista baseia-se na aplicação da teoria económica mais consensual e bem sucessida (paradigma neoclássico na microeconomia) – em parcas palavras oferta e procura – para obter as explicações mais convincentes sobre a tendência no aumento das desigualdades, desemprego, vícios, saúde, e fertilidade (também já tinha escrevido nestes termos sobre desigualdes salariais – aqui). E esta simplicidade de análise faz muita falta para alguns economista que povoam o espaço mediático português.

→ Leave a CommentCategorias: Economia
Tagged:

Milton Friedman vs. Académicos Islandeses

Junho 27, 2009 · Deixe um Comentário

Em 1984, em visita à Islândia, Milton Friedman é convidado para um programa de televisão onde discute filosofia e economia contra um painel bastante hostil de professores de sociologia, ciência política, e economia.

Já no final desse programa, um dos professores do painel queixa-se sobre o facto de haver um preço de entrada para os espectadores numa palestra que o Friedman ia dar mais tarde numa universidade local, uma prática que até ao momento era inédita naquele país. A resposta dada por Friedman é brilhante. É também um dos muitos exemplos da velocidade com que o Professor conseguia desmontar ideias falaciosas. Vale a pena ver o video em baixo e vale a pena ver todo o programa (aqui). Simplesmente genial.

→ Leave a CommentCategorias: Economia
Tagged:

Efeito crowding out em sentido lato

Junho 25, 2009 · Deixe um Comentário

O recente manifesto dos 28 economistas veio levantar na blogosfera uma discussão lateral sobre a efectividade da política fiscal na economia portuguesa. Os argumentos utilizados são muito Keynesianos no seu conteúdo e prendem-se essencialmente na seguinte questão: será que o investimento público permite uma expansão do PIB; ou será que este investimento implicará menos fundos para o sector privado (através de taxas de juro mais elevadas) gerando um efeito nulo no PIB? A resposta a esta questão rapidamente se traduziu na explicação peremptória da inviabilidade da existência de um efeito de crowding out (ver aqui para argumentos Keynesianos, e aqui para uma tentativa de argumentação monetarista). Significa portanto que nestas opiniões, devidamente fundamentadas por modelos económicos, o aumento temporário da despesa pública implica necessariamente um aumento da procura agregada e como tal num aumento do PIB. Na realidade, os modelos desenvolvidos pelos economistas não são assim tão bons (pff…como se isso fosse alguma novidade).

Não será muito difícil de conceber hipóteses para as quais o aumento da despesa leva na realidade a uma diminuição da procura agregada. Sendo Portugal uma pequena economia aberta em regime de câmbios fixos com os seus principais parceiros comerciais, o modelo de Mundell-Fleming torna-se num óptimo instrumento para interpretarmos estas hipóteses. Uma implicação directa deste modelo para uma economia de câmbios fixos é que a política monetária desaparece: como não há ajustamentos na taxa de câmbio a  moeda fluirá internacionalmente de maneira a igualizar as taxas de juro. Neste cenário a política fiscal em Portugal teria efeitos máximos sobre a procura agregada já que a pressão adicional da despesa estatal não alteraria as taxas de juro internacionalmente determinadas, e como tal o investimento/consumo privado continuaria a ter as mesmas condições de financiamento. No entanto, estas dinâmicas podem ser bem mais complicadas. Mesmo dentro da zona euro, existem diferenciais de taxas de juro associadas ao risco específico de cada país (ver aqui e aqui). Assim o tal efeito crowding out será recuperado se o diferencial das taxas de juro subir, resultado de um maior risco percebido para Portugal e provocado por uma maior despesa fiscal. De facto, a procura agregada pode mesmo pode mesmo diminuir se a situação de endividamento do país for bastante crítica e se a elasticidade do investimento/consumo privado perante a taxa de juro for elevada.

Uma outra hipótese (na minha opinião, mais verosímil de ocorrer) decorre do facto de que um aumento temporário da despesa pública implica um aumento da dívida pública e como tal um aumento da tributação fiscal no futuro. O problema dessa tributação é que não há muitos impostos lump sum. Ou seja, é provável que o aumento futuro da carga fiscal venha a incidir sobre o rendimento, em particular no rendimento do capital. Mas uma taxa de imposto esperada mais elevada levará a que a taxa de retorno esperada de um investimento corrente passe a ser mais baixa. Ou seja, a procura por investimentos correntes diminui e recuperamos de novo o efeito crowding out (e nem estamos a considerar aqui outros efeitos negativos no consumo relacionados com a equivalência Ricardiana). E para este efeito nem precisamos de armadilhas da liquidez ou sequer de considerar o modelo de Mundell-Fleming. De facto o crowding out será mesmo total e a procura agregada diminuirá se a elasticidade do investimento em relação ao seu retorno futuro for elevada e se as expectativas de aumento futuro dos impostos (distorcionários) forem elevadas.

Será que Portugal se encaixa bem em alguma destas hipóteses? Será que se encaixa bem nas duas? A reposta a estas questões permanecerá essencialmente um assunto empírico. Assim ninguém poderá afirmar com certeza que acontecerá isto ou aquilo quando o governo investe em mega projectos públicos. Claro que toda esta discussão tem em vista a natureza cíclica de curto-prazo da economia. E retornando ao manifesto dos 28, a discussão dessas obras públicas claramente que transcende para o longo-prazo, i.e, para a estrutura da nossa economia. Sobre essa estrutura não haverá muito mais para afirmar do que o seguinte: esta crise irá passar mas nós continuaremos pobres como sempre fomos.

→ Leave a CommentCategorias: Economia · Macroeconomia
Tagged: , ,

Sistemas políticos mudam mas os príncipios ficam

Junho 18, 2009 · 2 Comentários

Numa discussão que está a ser mantida no blogue ladrão de bicicletas, Jorge Bateira propôs uma alteração ao sistema capitalista actual. Em suma o Jorge Bateira defende uma alteração de instituições que não pusesse em causa a eficiência da economia de mercado na alocação de recursos. Claro que este tema dá uma boa discussão económica pois já aqui defendi que esta ciência encontra-se definida para explicar fenómenos bastante gerais; aplicáveis a diversos sistemas do espectro político. Como a resposta que dei no blogue não foi devidamente revista, transcrevo-a aqui com algumas correcções e ligações:

Um breve comentário sobre esta discussão.

A questão mais importante aqui colocada é como alterar o mecanismo de mercado para implementar os objectivos de esquerda (sem ser por uma via revolucionária).

E a resposta a esta questão não é fácil. O Jorge Bateira reconhece que o capitalismo prevalece sobre o comunismo (ou utilizando uma palavra mais bonita: socialismo real) em eficiência económica. Mas interessa perceber por que é que isto acontece. E a resposta encontra-se centrada nos incentivos. Os incentivos são importantes se pretendermos ter pessoas produtivas que contribuam para a sociedade. Numa economia livre de mercado o mecanismo natural de incentivo é o objectivo do lucro – algo que deverá repugnar muita gente neste espaço. Enquanto, num sistema alternativo comunista, o mecanismo de incentivo é a execrável  Gulag – que nem assim conseguiu alinhar devidamente os incentivos dos trabalhadores.

Claro que o Jorge Bateira reconhece isto mesmo. Assim propõe uma solução com o objectivo de manter todos os direitos que hoje detemos (liberdade, justiça, etc.), mantendo os mecanismos de alocação e de incentivos característicos das economias de mercado. A solução passa pela “progressiva e progressista transformação do capitalismo tendo em vista a subordinação dos mercados ao interesse público democraticamente deliberado”. Claro que podíamos dizer que isto é o que tem vindo a acontecer nas nossas democracias ocidentais. Por exemplo, quando nos anos 80 as populações começaram a considerar ilegítimo taxas de tributação de rendimento de 80 e 90%, trataram de democraticamente eleger políticos que reduziram as taxas para os níveis actuais (30-40%). Também podia falar em como a democracia pode ser um atentado a certos direitos mais fundamentais que se encontram mais protegidos pela instituição  mercado. Por exemplo, no mercado eu posso escolher por uma gravata amarela enquanto o Jorge pode escolher por uma gravata azul, e todos podemos satisfazer as nossas preferências. Numa democracia totalitária isto não é necessariamente assim: se a maioria decidir por uma gravata verde lá teremos todos de a usar. Mas também não vou falar disso. Prefiro manter a discussão no campo puramente económico.

Se destrinçarmos melhor a proposta do Jorge verificamos que aquilo que aquilo que ele efectivamente propõe é a “multiplicação de espaços de democracia participativa, incluindo o interior das empresas”. Ou seja o de obrigar as empresas a terem nos seus concelhos executivos elementos dos trabalhadores – algo que já tinha defendido neste blogue. Esta concepção equivale a considerar a economia de mercado como uma gigantesca árvore de natal em que, mudando umas bolinhas aqui e ali, nada acontecerá às demais – o resultado final será bem mais bonito. Na realidade estes sistemas económicos são bem mais complexos: subtis alterações podem ter impactos abrangentes. E esta proposta do Jorge Bateira é uma delas, porque destrói parte dos incentivos tão importantes para as economias de mercado. Pensem como é que uma empresa se governaria com uma gestão constituída por accionistas, empregados, fornecedores, clientes, ambientalistas, fiscais, etc. Todos estes com objectivos diferentes e mesmo opostos. De facto seria incrivelmente difícil que estes acordassem um mecanismo de incentivo para motivar os trabalhadores a executarem um nível adequado de esforço. Este é um problema conhecido na ciência económica como múltiplos principais e um agente (o Avinash Dixit tem uns modelos interessantes sobre isto). E um exemplo de uma instituição que funciona nestes moldes é a UN onde nunca nada é decidido.

Na realidade a proposta do Jorge Bateira afectaria parte dos incentivos que caracterizam a economia de mercado. O resultado seria um crescimento económico mais lento no futuro. Claro que não tenho nada contra, desde que todos estejamos bem informados desta possibilidade. Mas em parte é por isso que existe ciência económica – para nos esclarecer algumas implicações deste tipo de propostas políticas.

→ 2 CommentsCategorias: Economia
Tagged: ,