A ideia de que existem retornos decrescentes é muito simples mas de implicações muito práticas na economia. Imaginemos então a seguinte história. Vamos supor que eu quero fazer uma omelete de bacalhau com tomate à portuguesa para 4 pessoas. A melhor receita para realizar este prato envolve umas determinadas proporções dos ingredientes: 250 gramas de bacalhau, 12 ovos, 100g de manteiga, etc.. Mas vamos supor que aparece uma pessoa adicional para a refeição. Temos assim duas formas diferentes para aumentar a produção da omelete. Ou aumentamos equitativamente todos os ingredientes; ou aumentamos apenas 1 ingrediente – por exemplo ovos – de maneira a que a quantidade final chegue para todos. A questão nuclear é que o aumento de ovos nesta última solução terá de ser muito maior do que quando todos os ingredientes crescem por igual. Aliás, se continuássemos a aumentar o número de ovos sem aumentar os demais ingredientes, chegaríamos rapidamente a um ponto em que a refeição ia ficar intragável – uma diminuição efectiva da produção final.
Transpondo este exemplo para a linguagem económica, aquilo que dizemos é que a produtividade média do ingrediente ovos diminui quando todos os outros ingredientes se mantêm constantes. Esta é uma relação conhecida em economia como retornos decrescentes: a contribuição marginal de um factor de produção decresce à medida que a proporção desse factor aumenta.
Passando agora para outro tema, vejamos aquilo que foi escrito no recente manifesto das 51 personalidades:
Uma taxa de desemprego de 10% é o sinal de uma economia falhada, que custa a Portugal cerca de 21 mil milhões de euros por ano – a capacidade de produção que é desperdiçada, mais a despesa em custos de protecção social.
Esta é uma afirmação que fica bem em qualquer manifesto que queira captar a atenção do leitor mais desatento. Mas será que reflecte argumentos económicos sérios? De facto, quando lemos esta frase surgem imediatamente uma série de dúvidas pertinentes: será que estes senhores defendem que se pode simplesmente passar para desemprego 0% (?); ou será legítimo somar a produção desperdiçada com a despesa de protecção quando essa despesa resulta apenas da redistribuição da própria riqueza produzida (?). No entanto, o que me atraiu mais neste excerto foi a estimativa dos €21 biliões de produção desperdiçada quando o desemprego é 10%. Como terá sido este número produzido? Vamos tentar descortinar esta questão através da aplicação da ideia dos retornos decrescentes, i. e., a produtividade média de um factor diminui quando aumentamos um factor de produção. Passemos então aos números.
Utilizando dados do Eurostat, verificamos que o PIBpm de Portugal em 2008 foi de €166.227 biliões. Nesse mesmo ano os números do emprego situaram-se 4.872 milhões de trabalhadores. Podemos assim calcular a produtividade média por trabalhador através da seguinte fórmula:

Isto significa que cada trabalhador português produziu em média um valor de €34117 durante 2008.
Seguidamente os autores do manifesto referem 10% de desemprego. E este valor pode ser traduzido num número de trabalhadores adicionais resolvendo a seguinte equação:

Logo, da eliminação dos 10% de desemprego resultariam 541386 novos postos de trabalho. Assim, e dada a estimativa de €21 biliões para o acréscimo do PIB resultante desse emprego (designemos como variável y), temos dados suficientes para calcular a nova produtividade média no cenário hipotético lançado no manifesto. Esta pode ser calculada por recurso à seguinte expressão:

E o valor resultante para a produtividade é de €34585 por trabalhador. Surge assim o resultado surpreendente que a produtividade média aumenta €467, mesmo quando adicionamos mais de 500 mil trabalhadores no emprego total mas mantemos constante todos os restantes factores de produção (tecnologia, capital, energia, espaço). Mas isto significa que não existem retornos marginais decrescentes para o factor trabalho em Portugal. É como se os desempregados admitidos neste cenário fossem muito mais produtivos que os actuais trabalhadores ou se aumentassem a produtividade dos trabalhadores existentes. Na realidade nada disto acontece. Recém empregados são em média menos produtivos que os empregados incumbentes (pois ainda não possuem conhecimentos específicos relativos ao novo emprego); e estes não aumentam a produtividade dos outros trabalhadores (por aplicação directa dos rendimentos marginais decrescentes). A conclusão é que a estimativa apresentada no manifesto 51 é altamente duvidosa. Algo que poderia ter sido identificado pela simples aplicação de um dos resultados mais elementares em economia.
O mais surpreendente é que os senhores que publicaram este manifesto são também os primeiros a criticar os programas de economia ensinada nas faculdades (ver “o debate não pode parar“; e este artigo). Nas suas opiniões, as noções básicas da microeconomia (no paradigma neoclássico) deveriam ser menos consideradas por substituição de um ensino mais “pluralista”. Mas não é assim que as coisas funcionam. Sem conceitos elementares não é possível discutir com substância questões complexas. Mas claro que o ensino de teorias esdrúxulas – por exemplo a teoria do trabalho marxista – é mais fácil quando os estudantes são acríticos ou não compreendem os conceitos mais básicos da teoria económica (por exemplo o de retornos marginais decrescentes). Felizmente este manifesto não ficou consignado à uma sala de aula. As respostas vão aparecer.
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Exemplo de uma função de produção com rendimentos marginais decrescentes (entre D e H)
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